AS MENTIRAS DO NATAL.

Na época de Natal é costume montar presépios em igrejas, lojas e residências. Há os mais variados
tipos, diferentes em suas formas e em sua aparência. Existem presépios grandes e pequenos,
orientais e ocidentais, europeus e asiáticos. Eles são montados em meio a reproduções de palmeiras
ou pinheiros, e os mais diversos personagens se agrupam ao redor da manjedoura. Mas em qualquer
presépio sempre há duas figuras muito populares: o boi e o jumento.
Qual é a origem dessa tradição? O relato bíblico do nascimento de Jesus não menciona bois nem
jumentos. Foram alguns "pais da Igreja" (líderes nos primeiros séculos do cristianismo) que
introduziram esses animais na história do Natal, e eles o fizeram com segundas intenções. A razão foi
seu ódio aos judeus, e a passagem utilizada para justificá-lo foi Isaías 1.2-4: "Ouvi, ó céus, e dá
ouvidos, ó terra, porque o Senhor é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados
contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não
tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de
iniqüidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o Senhor, blasfemaram do Santo de
Israel, voltaram para trás". Muitos "pais da Igreja", fazendo uso dessa passagem, diziam:
Parece que o boi e o jumento têm mais entendimento que o povo de Israel. Por isso,
coloquemos esses animais no presépio para servirem de exemplo: eles conhecem o
senhor de sua manjedoura, enquanto os judeus não o conhecem.
Portanto, os dois personagens tradicionais que fazem parte do cenário da manjedoura de Jesus têm
sua origem em uma motivação anti-semita.
As promessas de Deus contra todo anti-semitismo
Não devemos desconsiderar que Israel realmente se
comportou como um boi ou como um jumento no decorrer
de sua história, pois foi indiferente, obstinado e teimoso para
com seu Senhor. Por essa razão Deus teve de trazer juízos
e castigos sobre o povo de Sua aliança, permitindo que
nações estranhas governassem sobre Israel. Nos tempos
finais esse processo atingirá seu ponto máximo.
No final, porém, Deus vai alcançar o alvo que estabeleceu
para Seu povo, conduzindo-o à manjedoura de Seu Filho.
Ele não abre mão de Suas promessas, cumprindo-as
integralmente: "Não te permitirei jamais que ouças a
ignomínia dos gentios; não mais levarás sobre ti o opróbrio
dos povos, nem mais farás tropeçar o teu povo, diz o Senhor Deus" (Ez 36.15).
Na época de Natal é costume montar
presépios em igrejas, lojas e residências.
Neles sempre há duas figuras muito
populares: o boi e o jumento. O relato
bíblico do nascimento de Jesus não
menciona bois nem jumentos.
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O cântico de Maria por ocasião do nascimento de Jesus demonstra que a aliança do Senhor com
Abraão e os patriarcas tem validade eterna para todos os seus descendentes: "Amparou a Israel, seu
servo, a fim de lembrar-se da sua misericórdia a favor de Abraão e de sua descendência para sempre,
como prometera aos nossos pais" (Lc 1.54-55). Deus prometeu exatamente o mesmo a Abraão:
"Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações,
aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência" (Gn 17.7). Jesus veio também por isso!
Ele não tornou-se homem para permitir que o anti-semitismo triunfasse sobre Israel, mas para
confirmar a aliança eterna de Deus com Seu povo: "Digo, pois, que Cristo foi constituído ministro da
circuncisão, em prol da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos nossos pais" (Rm
15.8).
Quem rouba as promessas de Israel coloca em dúvida a veracidade do que Deus diz e questiona a
obra de Jesus na cruz. Assim, o Senhor é apresentado como mentiroso, pois Jesus não veio para tirar
as promessas divinas de Israel, mas para confirmá-las.
O caminho pelo qual Deus conduziu a Israel em meio ao anti-semitismo
Na "história de Natal anti-semita" existe uma pessoa que desempenha um papel muito importante: o rei
Herodes (o Grande). Ele foi um dos primeiros anti-semitas mencionados no Novo Testamento.
Herodes se opôs ao nascimento de Jesus; ele tentou impedir a salvação e "mandou matar todos os
meninos de Belém e de todos os seus arredores" (Mt 2.16).
Por que ele cometeu esse ato de crueldade? Será que ele agiu motivado apenas pelo medo de perder
seu trono para o "recém-nascido Rei dos judeus" (Mt 2.2)? Ou havia um sentido espiritual mais
profundo subjacente à sua ação cruel?
Herodes, como se sabe, era edomita. Os edomitas descendem de Esaú (Gn 36.1,8,43). Em Romanos
9.13 Paulo cita Malaquias 1.2-3. Ali o Senhor diz: "...amei a Jacó, porém aborreci a Esaú". Por que o
Senhor aborreceu a Esaú? Porque ele não cria na ressurreição! Ao negociar seu direito de
primogenitura, Esaú respondeu a seu irmão Jacó: "Estou a ponto de morrer; de que me aproveitará o
direito de primogenitura?" (Gn 25.32). Esaú negava a realidade da ressurreição, não acreditava no
cumprimento futuro das promessas divinas para Israel e, em sentido mais profundo, também não cria
na obra de Deus em Jesus Cristo relativa à morte e à ressurreição.
Esaú representa, assim, uma pessoa que direciona todas as suas atenções somente para as coisas
terrenas, que não pensa além desta vida aqui na terra e, portanto, despreza os valores espirituais.
Por essa razão, Esaú é chamado de "impuro" e "profano" (Hb 12.6). Ele, por exemplo, tomou
conscientemente como esposas duas mulheres gentias, que causaram grandes problemas aos seus
pais, Isaque e Rebeca (Gn 26.34-35). Em Malaquias 1.1-4 a terra de Edom (de Esaú) é chamada de
terra de perversidade e povo contra quem o Senhor está irado para sempre. Conforme Ezequiel 32.29-
32, Edom é descrito como estando localizado no reino dos mortos, "com os incircuncisos e com os que
desceram à cova".
Portanto, não é de admirar que, sob domínio romano, justamente um descendente de Edom ocupava o
trono quando o Filho da Vida nasceu em Belém. Percebemos que a ação de Herodes, ao mandar
matar os bebês judeus, foi muito além da simples reação à ameaça ao seu poder real.
Simbolicamente, a luta foi entre Esaú e Jacó, entre Herodes e Jesus, entre o reino dos mortos e o
paraíso, entre as coisas terrenas e passageiras e aquelas que são eternas.
A pessoa de Herodes está diametralmente oposta às promessas que Deus deu a Abraão para sempre
e que foram confirmadas pela morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Foi também um Herodes (Antipas) que ordenou a decapitação de João Batista, porque era dominado
pela mentalidade carnal, pela concupiscência dos olhos (Mt 14.6-11).
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Assim podemos entender porque esse Herodes (Antipas) zombou e escarneceu de Jesus antes de
devolvê-lO a Pilatos. Na pessoa de Herodes o reino dos mortos se opunha Àquele que venceria a
morte (Lc 23.11).
Quando o sinédrio se opôs ao testemunho dos apóstolos acerca da ressurreição, a igreja primitiva
reuniu-se em unanimidade, citando o papel de Herodes (Antipas) em sua oração: "Levantaram-se os
reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; porque
verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes
e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel" (At 4.26-27).
Também foi um Herodes (Agripa I, neto de Herodes, o Grande) que mandou passar ao fio da espada a
Tiago, irmão de João, e mandou prender a Pedro (At 12.1-3).
Vemos que sempre que o Plano de Salvação se aproximava de uma encruzilhada importante, aparecia
em cena um Herodes anti-semita tentando impedir que a vida se manifestasse.
Por isso, certamente não é por acaso que a Bíblia diz acerca de Edom e de outros que se encontram
no reino dos mortos: "Ali, está Edom e todos os seus príncipes, que, apesar do seu poder, foram
postos com os que foram traspassados à espada; estes jazem com os incircuncisos e com os que
desceram à cova. Ali, estão os príncipes do Norte, todos eles, e todos os sidônios, que desceram com
os traspassados, envergonhados com o temor causado pelo seu poder; e jazem incircuncisos com os
que foram traspassados à espada e levam a sua vergonha com os que desceram à cova" (Ez 32.29-
30).
Não causa surpresa, portanto, que justamente acerca do orgulho e da morte horrível de Herodes
(Agripa I, neto de Herodes, o Grande), a Palavra de Deus diga: "Em dia designado, Herodes, vestido
de trajo real, assentado no trono, dirigiu-lhes a palavra; e o povo clamava: É voz de um deus, e não de
homem! No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por ele não haver dado glória a Deus; e,
comido de vermes, expirou. Entretanto, a palavra do Senhor crescia a se multiplicava" (At 12.21-24).
Esse severo juízo divino sobre Herodes torna-se mais compreensível se levarmos em conta sua
situação espiritual, pois o povo dos edomitas, do qual Herodes fazia parte, era um povo profundamente
anti-semita. E esse povo também desempenha um papel importante nas declarações que Deus faz
acerca do "Dia do Senhor":
– "Contra os filhos de Edom, lembra-te, Senhor, do dia de Jerusalém, pois dizem: Arrasai, arrasai-a,
até aos fundamentos" (Sl 137.7).
– "Por causa da violência feita a teu irmão Jacó, cobrir-te-á a vergonha, e serás exterminado para
sempre" (Ob 1.10).
– "Dizem: Vinde, risquemo-los de entre as nações; e não haja mais memória do nome de Israel. Pois
tramam concordemente e firmam aliança contra ti as tendas de Edom e os ismaelitas..." (Sl 83.4-6).
Na minha opinião, todo o anti-semitismo se origina desse espírito edomita, inspirado pelo diabo. O
espírito de morte que emana de Edom irá se voltar de maneira cada vez mais intensa contra o povo de
Israel nos tempos do fim, mas não conseguirá alcançar seu objetivo.
A queda e a ressurreição de Israel
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É bem verdade que Israel – diferentemente do boi e do jumento – por
muito tempo não reconheceu a manjedoura de seu Senhor. E também é
verdade que o Senhor tornou-se uma pedra de tropeço para grande parte
de Seu povo. O velho Simeão exprime essa realidade com as seguintes
palavras: "Eis que este menino será destinado tanto para ruína como para
levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição" (Lc
2.34). Portanto, não somente "ruína" mas também "levantamento". Por
isso, em Isaías 1 não lemos apenas: "O boi conhece o seu possuidor, e o
jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o
meu povo não entende" (v.3), mas está escrito também que Deus diz:
"restituir-te-ei os teus juízes, como eram antigamente, os teus
conselheiros, como no princípio; depois, te chamarão cidade de justiça,
cidade fiel. Sião será redimida pelo direito, e os que se arrependem, pela
justiça" (vv.26-27).
Através do direito dAquele que morreu e ressuscitou, através de Sua
justiça, Israel retornará à manjedoura de seu Senhor.
Um final feliz
A "história de Natal anti-semita" não terá um final feliz apenas para Israel. Todos aqueles que se
dispuseram, em algum momento de suas vidas, a deixarem de ser "jumentos obstinados" para se
transformarem em "ovelhas do pasto de seu Senhor", fazem parte de Seu rebanho, são cuidados por
Ele e desfrutam da proximidade de Sua manjedoura. Ele nos alimenta. Ele nos satisfaz. E neste Natal,
no final deste ano em que a história do mundo mudou, temos, mais do que nunca, o privilégio de
buscar refúgio nAquele que é o Senhor da Vida. Queira Deus que este Natal seja para nós um marco
perene, lembrando-nos que podemos deixar toda a inquietação deste mundo e que temos o direito de
usufruir de Sua presença, de Sua proximidade, de Sua intimidade. "A intimidade do Senhor é para
aqueles que o temem" (Sl 25.14). É neste sentido que desejo a todos um "Feliz Natal!" (Norbert Lieth -
http://www.chamada.com.br)
Extraído da revista Notícias de Israel, dezembro de 2001.
"A intimidade do Senhor é
para aqueles que o temem".

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