A Teologia do Espírito: desafios atuais

O termo espiritualidade, como resumiu Bruno Secondin [1], aparece na literatura latina cristã no decurso do século V, traduzindo, porém, o grego "pneumatiké", ou seja, no seu significado pneumatológico, exprimindo uma vida no Espírito Santo em nós. Mais tarde, porém, dado que essa vida no Espírito é um privilégio da humanidade, capaz de se abrir à transcendência pela sua atividade de conhecimento e de amor, o termo espiritualidade vai adquirir um sentido antropológico, designando a vida humana no seu sentido mais alto, como sabedoria, vida de conhecimento e amor dos valores transcendentes.
   A história do termo vai, pois, no sentido inverso das nossas tendências atuais. Vemos primeiro a natureza e depois a graça, quando, pela história, "espiritualidade" designava, em primeiro lugar, a graça, a vocação sobrenatural à comunhão com Deus, que fazia a dignidade do ser humano criado por Deus, e somente depois, quando se passou a privilegiar a análise das essências antes de se considerar os existentes concretos, espiritualidade passou a designar uma qualidade específica do ser humano, dotado, como nenhuma outra criatura material, da capacidade de conhecer e amar a Deus, ou, do desejo de Deus, como diz a Tradição, retomada na base do Catecismo da Igreja Católica [2].
   Pode-se considerar que essa inversão histórica é responsável não só pela ambigüidade atual do termo espírito, senão pelo obscurecimento, pelo menos no Ocidente, da natureza propriamente espiritual, pneumática, ou sobrenatural do cristianismo como dizemos, encarando a vida da graça nos moldes das estruturas espirituais da própria natureza humana criada e reservando o termo Espírito, pneuma, à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, cuja ação no mundo dos humanos é cada vez mais considerada como excepcional, acrescentada para finalidades particulares, ao dom essencial da vida divina que nos é comunicada pelo Filho de Deus.
   A reversão desta situação deve-se, em grande parte, ao Vaticano II [3]. Acentuando a importância da teologia trinitária, documentos com a constituição Lumen Gentium [4] e o decreto sobre as Missões, Ad Gentes [5], sublinham a presença imanente do Espírito na comunidade cristã e em cada um dos fiéis, pondo, assim, em evidência, segundo a melhor tradição dos Padres gregos [6], o caráter sobrenatural ou pneumático da espiritualidade cristã.
   A vida humana é chamada a ser uma vida no Espírito, como insistiu fortemente o subsídio de preparação ao novo milênio no ano de 1998 [7], não só porque somente no Espírito podemos experimentar e conhecer Deus como Deus, mas porque, na economia da salvação, realizada pela missão do Filho e do Espírito, o Verbo e o Espírito são inseparáveis, desde as origens do mundo até a consumação final do desígnio do Pai [8]. Retoma-se, assim, o belíssimo tema de santo Ireneu, que via no Filho e no Espírito as duas mãos do Pai [9].
   Pode-se dizer que o que caracteriza a atual Teologia do Espírito Santo, ou Pneumatologia, é, na expressão de Congar, no seu discurso de abertura do 1º Congresso de Pneumatologia, em 1992, que  "entendemos hoje por Pneumatologia não a teologia da terceira Pessoa em si mesma, mas o impacto de uma consideração ativa do Espírito sobre a maneira de ver a Igreja, sua vida e seus membros".
   Essa, aliás, é a linha adotada por João Paulo II na sua bela encíclica sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do Mundo [10], abordando, pela raiz, uma problemática até hoje não inteiramente resolvida, de focalizar os diversos aspectos da ação do Espírito na história, tanto o desafio da santificação encarnada nas realidades humanas como o das manifestações extraordinárias do Espírito, em que tendem a se concentrar os movimentos carismáticos [11].
   Há muito a se fazer na compreensão da ação do Espírito na Igreja, tendo em vista, em particular, a problemática brasileira dos choques, aparentemente inevitáveis, entre os objetivos das pastorais libertadoras e a concepção de vida pessoal e comunitária que prevalece nos diversos movimentos de tendência carismática. Todavia, pensamos que uma obra como a de Congar [12], publicada no fim da década dos 70, em três volumes, possa contribuir para esclarecer as mais importantes questões que estão em jogo.
   No primeiro volume, O Espírito na Economia, depois de uma preciosa nota introdutória sobre a Experiência, que figura entre os textos teológicos mais lúcidos sobre o tema, Congar estuda a manifestação do Espírito tal como se deu e foi entendida nas Escrituras e na história do cristianismo, com seus altos e baixos, até o Vaticano II.
   O segundo volume, Ele é o Senhor e dá a vida, depois de analisar a ação do Espírito como alma da Igreja e sopro divino que se faz sentir na vida em nossas vidas pessoais, Congar elabora o primeiro estudo sistemático da Renovação Carismática e conclui o volume mostrando a presença atuante do Espírito em todo o mundo.
   O terceiro volume, O rio que corre no Oriente e no Ocidente, contém uma importante análise das doutrinas oriental e ocidental sobre a Trindade, na base da maneira de entender a ação do Espírito nos sacramentos.
   O segredo da pneumatologia é a sua vinculação estreita com a realização do desígnio de Deus no Cristo Jesus, salvaguardando sempre a santificação como participação antecipada na vida de Deus, quer na intimidade da oração, quer na transformação da sociedade segundo o Evangelho.


[1] "Espiritualidade": a história de uma palavra. In: SECONDIN, Bruno. Espiritualidade em diálogo: novos cenários da experiência espiritual. São Paulo: Paulinas, 2005. pp. 27-40.
[2] Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Paulinas e associadas, 1993. nº 27.
[3] Vaticano II: mensagens, discursos e documentos. São Paulo: Paulinas, 1998, numa nova tradução dos originais feita por Francisco Catão, enriquecida de vários índices, inclusive um índice analítico, que permite aceder aos principais textos que tratam de determinados assuntos.
[4] VATICANO II. Lumen Gentium. São Paulo: Paulinas, 2001. Col. A voz do Papa, nº 31.
[5] VATICANO II. Ad gentes. São Paulo: Paulinas, 2002. Col. A voz do Papa, nº 42.
[6] Sobre as perspectivas renovadoras da tradição grega, cf. Volodomer Koubetch, Da criação à parusia, São Paulo: Paulinas, 2004 e, mais informativo, Enrico Morini, Os ortodoxos: o Oriente do Ocidente, São Paulo: Paulinas, 2005.
[7] "No Espírito". In: COMISSÃO TEOLÓGICO-HISTÓRICA DO GRANDE JUBILEU: Senhor, a terra está repleta do teu Espírito. São Paulo: Paulinas, 1997. pp. 17-24.
[8] "A missão conjunta do Filho e do Espírito". In: Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Paulinas e associadas, 1993. Iª Parte, 2ª seção, nn.  689-690; 702-747.
[9] Cf. NOGUEIRA, Luiz Eustáquio dos Santos. O Espírito e o Verbo: as duas mãos do Pai. São Paulo: Paulinas, 1995.
[10] JOÃO PAULO II, Dominum et vivificantem. São Paulo: Paulinas, 1986.
[11] Veja-se a respeito o estudo polêmico de Victor Codina, Creio no Espírito Santo: pneumatologia narrativa,  São Paulo: Paulinas, 1997.
[12] CONGAR, Yves.  Creio no Espírito Santo. São Paulo: Paulinas, 2005. 3 vv.

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