[Estudo Biblico] DOENÇAS FAMILIARES.

Então se chegou a ele a mulher de Zebedeu com seus filhos, e adorando-o, pediu-lhe um favor. Perguntou-lhe ele: que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda. Então se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir. E ele lhes perguntou: Que quereis que eu vos faça? Responderam-lhe: Permite-nos que na tua glória nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mateus 20:20-21 e Marcos 10:35-37.

Parece que há uma certa discrepância aqui nas narrativas dos dois evangelistas, pois Mateus sugere que foi a mãe dos discípulos quem fez o pedido, porém Marcos mostra os próprios discípulos apelando a Jesus. Entretanto, não me parece que haja propriamente uma contradição, desde que Mateus se refere à mãe juntamente com os seus filhos, entrando com o pedido. É possível que a mãe tenha falado em primeiro lugar e que os filhos logo em seguida tenham tido a ousadia de expressar os seus sentimentos.

Neste episódio há outros elementos igualmente intrincados nas entrelinhas que devemos considerar com mais atenção. Creio que os dois relatos vêm revelar algo muito além de uma possível contradição textual, uma vez que estamos diante de uma relação familiar um tanto complexa. Aqui vemos a mãe se antecipando na tentativa de resguardar uma posição de destaque para os seus filhos, já que está em jogo neste apelo a proeminência dos seus rebentos no cenário do reino de Cristo.

A solicitação daquela senhora evidencia uma necessidade de realce sobre as outras pessoas, o que de certo modo, confirma uma característica de inferioridade. Talvez possamos observar nesta aspiração algo semelhante a um rebaixamento emocional, porque a família mostra sintomas de aviltamento. A preocupação com o relevo dos rapazes assentados na plataforma principal demonstra uma deficiência no conceito da personalidade. Muita gente inferiorizada precisa de assessórios especiais para compor sua imagem no palco das apresentações carentes.

O pecado deformou a dignidade do ser humano e vemos os nossos primeiros pais usando os seus aventais como ornatos para tentar cobrir a nudez e compensar sua imagem perante a face de Deus e a opinião do outro. Daí em diante a raça de Adão foi invadida por todos estes mecanismos de regulagem que servem, de alguma forma, para indenizar os prejuízos causados com a falta de valor pessoal. Assim sendo, muitos expedientes não essenciais têm sido agregados à pessoa, a fim de lhe garantir aceitação no meio social. Observe, por exemplo, como a grife dos estilistas ganha peso na apreciação dos mais carentes.

Somos uma sociedade de carentes emocionais e quanto mais desprovidos dos valores essenciais da pessoa humana, mais necessitados nos sentimos dos recursos anexos para garantir nossa aceitação no contexto da coletividade. Todas as pessoas portadoras de um sentimento subalterno vão sempre se considerar em desvantagem com relação às outras, e vão tentar, de alguma forma, buscar um certo qualificativo que possa acrescentar um sentido de importância à sua identidade.

Os dois discípulos de Jesus dão a entender que sofrem de um mal profundo de mendicância psicológica e que esta insuficiência era um problema familiar. O protecionismo pegajoso da mãe estampa uma grande falta de equilíbrio na educação dos seus filhos e uma ausência maior de limite, impondo seu anseio dominante aos marmanjos imaturos. Os pais enfermos adoecem sua prole. Um lar carente de aceitação propõe todo o tipo de ascendência social, para que os filhos sejam reconhecidos. Nada pode ser mais trágico no processo educativo do que oferecer alternativas de significado, baseadas nos atributos adicionais de importância familiar, poder, riqueza, posição e títulos.

A proposta da mulher de Zebedeu é uma clara manifestação de falta de princípios éticos e uma característica marcante de uma pessoa dominadora que sufoca os filhos com suas ambições de grandeza. O medo da rejeição insuflado pelos anseios de reconhecimento faz uma pessoa se tornar ridícula, buscando aceitação a qualquer custo, por isso que o estilo manipulador de uma personalidade autoritária sempre converte um favor em mandamento. Os traços típicos da doença arrogante se evidenciam no papel político da manipulação que bajula aquele que se encontra no alvo dos seus interesses, a fim de levar vantagem.

A dona fulano-dos-anzóis-carapuça era uma enferma psicológica que assediava a vítima do seu bote, no caso Jesus, com veneração. Adorando-o pediu-lhe um favor... Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem... A estratégia do insano emocional é conquistar os seus objetivos proveitosos usaando as pessoas com elogios e louvação, como se fossem meras agências de corretagem. Conhecendo a fragilidade humana e a profunda carência de atenção que todos nós temos, o aproveitador lambe as feridas dos despojados com cuidados especiais e lisonjas, para em seguida apossar-se do seu intuito. Assim, a mulher queria fazer de Jesus um mero trampolim para alcançar seus propósitos.

A doença familiar é contagiosa. A mãe dominante e ambiciosa acabou propagando o apetite da grandeza nos seus filhotes, uma vez que Tiago e João estão agora cobiçando as cadeiras do trono. Sendo portadores de uma natureza soberba em conseqüência do pecado, e criados num ambiente pressionado pela grandeza, eles foram invadidos de um sentimento de importância que só se importa com as coisas elevadas e os lugares realçados. Noa seio de uma família oprimida pela patologia da miséria, freqüentemente um complexo de superioridade assume o comando que impulsiona toda energia para o tope do poder.

A atmosfera envolvente da família ambiciosa gera uma paixão contida pela glória inebriante e, ao mesmo tempo, um anseio irreprimível pela exaltação do homem. Trava-se, então, a luta entre os conceitos morais da humildade social e os desejos incontroláveis do coração intrigado com sua grandeza, econhecimento e domínio. Num contexto complexo de sentimentos abafados, em que entram o desejo, o medo e a fantasia, o paciente febril se perde num jogo de conveniências e interesses, procurando um lugar onde possa exibir seus talentos aperfeiçoados, a fim de ser aceito.

Jesus põe o dedo na ferida quando trata com os dois discípulos cegos de ambição, propondo um antibiótico de última geração.Para esta vida contaminada pelos vírus nobilíssimo e nobilitante só há um remédio a ser prescrito, o xarope amargo do Calvário. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Marcos 10:38. Os discípulos responderam que podiam, e o Senhor mostrou claramente, que só o cálice amargoso da cruz com o seu batismo na morte era capaz de curar o mal universal da teomania e a insidiosa doença familiar da glorificação pessoal.

A raça humana padece de uma hipertrofia exagerada na personalidade e cada pessoa sofre de um mal que só pode ser diagnosticada como a macromegalia-ególatra exibida, com a presunção de "top of mind". A única terapia eficiente e eficaz para esta moléstia tão grave é a morte do esnobe exibicionista na mesma cruz com Cristo. Não há outro medicamento na face da terra capaz de curar a doença da alma, mais difícil de diagnosticar, pois muitas vezes seus sintomas estão dissimulados com a máscara da espiritualidade mística ou disfarçados em humildade farisaica.

Não podemos brincar com a nossa saúde espiritual, já que Deus providenciou uma saída adequada para solucionar este problema. Tiago e João foram curados deste mal comum, com o genérico da farmácia divina, na crucificação com Cristo, e nós, também temos garantido o nosso tratamento permanente no mesmo hospital da graça, onde os dois discípulos enfermos forma clinicados. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. Romanos 6:11.

Nenhum cristão autêntico pode almejar ser ilustre no mundo em que o Senhor do universo viveu como um pobre desconhecido. Na terra em que Jesus estabelece o seu reino com uma bacia nas mãos, lavando os pés de pescadores, eu não posso pensar numa coroa enfeitando a minha cabeça. Toda necessidade de ser importante ou reconhecido perante o mundo reflete uma distorção profunda no caráter daquele que se diz ser filho de Deus. Mas os discípulos de Jesus entalhados no Calvário jamais trocarão a glória da cruz pelo brilho fosco de uma mídia alucinada pela notabilidade, nem pelos aplausos tolos das platéias ávidas por ídolos. Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou. 1 João 2:6. Neste planeta onde Deus foi, por mais de três décadas, um habitante humilde sem qualquer sinal de importância, eu não devo me envolver com as migalhas medíocres de uma estimação que nada vale perante os critérios dos céus. Gosto de ler um pensamento de Andrew Murray neste contexto, que bem define o caráter de um cristão autêntico: Como a água se infiltra nos lugares mais baixos, assim Deus lhe sacia de sua glória e poder quando o encontra humilhado. Uma pessoa que busca sua importância naquilo que é insignificante para Deus, acaba perdendo todo o significado de sua existência, para Deus, neste mundo, mas aquele que traz as marcas de Cristo pode viver com o mesmo sentimento de Cristo. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também com Cristo Jesus... a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz. Filipenses 2:5 e 8.

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