[Estudo da Pessoa do Espirito Santo] A Blasfêmia contra o Espírito Santo.



O que é Blasfêmia contra o Espírito Santo

No conceito de Platão, blasfêmia, do grego blasphemo, quer dizer "falar para danificar".
Nas Escrituras, porém, o conceito de blasfêmia tem um alcance mais vasto e tenebroso. No Antigo Testa­mento, especialmente no grego da Septuaginta, palavras como blasphemia e blasfemeos trazem, com poucas ex­ceções, o sentido de atos contrários à majestade de Deus. Quando ligadas ao mundo religioso, considera-se "blas­fêmia" várias atitudes contra Deus e o que é santo.
   Fazer uso do nome santo de Deus em vão em algo contrário a sua vontade. Por exemplo, o terceiro manda­mento traz em si este princípio, embora não seja estabelecida a pena, como em outros casos registrados na Bíblia. Entretanto, existe a proibição: "Não tomaras o nome do Senhor, teu Deus, em vão: porque o Senhor não
terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx20.7).
  Falar contra o nome santo de Deus, amaldiçoando-o (Lv 24.10-11).
  Julgar-se igual a Deus. Por causa desta concepção os judeus acusaram Jesus: "Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia, porque sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo" (Jo 10.33).
  Falar contra o Templo e contra a Lei também era considerado blasfêmia pelos judeus (At 8.13).
  Falar contra o Céu e contra aqueles que nele habitam (Ap 13.6).
Outros atos abusivos eram considerados blasfemos, tais como:
  falar contra Moisés (At 8.11);
  contradizer a verdade de Deus (At 13.45);
  falar contra a palavra de Deus (Tt 2.5);
  proferir mentiras blasfemas (Ap 2.9).
Jesus mostrou que a blasfêmia contra o Espírito Santo ultrapassa os limites da redenção: "Portanto, eu vos digo: todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada aos homens. E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á perdoado, mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro" (Mt 12.31,32).
O texto não alude a um pecado em particular, mas a um ato ou atos definidos que determinam um estado pecaminoso, uma oposição determinada e voluntária con­tra a força e obra do Espírito Santo. Neste caso, o pecado consiste de duas maneiras:
  resistir deliberadamente toda e qualquer operação do Espírito Santo;
  atribuir às forças do mal aquilo que está sendo reali­zado pelo Espírito de Deus.

Duas Maneiras de Cometer este Pecado

De acordo com os ensinamentos de Jesus e de seus discípulos, há duas maneiras de os homens resistirem ao Espírito Santo. O perigo de se chegar a tal atitude reside, segundo J. Cranne, no exercício do livre-arbítrio. Muitos se aproveitam desse direito e optam por um caminho comple­tamente errado e irreversível, como fizeram - ou estavam a ponto de fazer - as autoridades religiosas nos dias de Jesus.

1. Resistir ao Espírito Santo
Estevão, cheio do Espírito Santo, acusa os que se lhe opunham: "Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como vossos pais" (At 7.51).
O pecado mais comum que uma pessoa sem Deus pode cometer contra o Espírito Santo é resisti-lo. Trata-se, portanto, de um pecado praticado apenas pelo não-convertido. Pode assumir a forma de desdém (At 26.28); de adiamento (At 17.32; 24.25); de ridicularização (At 17.32); ou de oposição agressiva (At 5.33-40).
Essa conduta pecaminosa não reconhece a atuação do Espírito Santo. Jesus havia demonstrado a seus opositores que tanto a razão quanto a instrução religiosa que haviam recebido não deixavam dúvidas de que o Espírito Santo operava através dEle. Mas, em seu ódio contra Jesus, os fariseus optaram por não aceitar a evidência dada por Deus. Abriram a boca contra o Senhor e contra seu Ungi­do, dizendo: "Este não expulsa demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios" (Mt 12.24).
Claro está que a aceitação ou rejeição da pessoa de Jesus Cristo contribuiu para determinar a atitude dos fariseus. Mas é a rejeição a base para o pecado imperdoável, que consiste em atribuir a Satanás a obra do Espírito Santo. ([1])

2. A blasfêmia
No grego, "blasfêmia" significa "dizer coisas abusivas", e indica algo declarado contra o que pertence a Deus. Às vezes significa "difamação" e "calúnia".
No presente texto, "blasfêmia" reveste-se de um sen­tido sombrio, tenebroso. Isto é, atribuir ao príncipe dos demônios as operações miraculosas que Jesus realizava pelo poder do Espírito Santo.

Um Pecado que Ultrapassa os Limites da Redenção

Quem disser coisas abusivas contra o Supremo Ser "nunca obterá perdão, mas será réu do eterno juízo" (Mc 3.29).
Em Hebreus 10.29, encontramos um exemplo deste pecado imperdoável. O escritor sagrado adverte sobre os que vivem pecando "voluntariamente": "De quanto mai­or castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?"
A passagem subentende que a impossibilidade do per­dão pela blasfêmia contra o Espírito Santo pode esten­der-se à vida além-túmulo. O Dr. F. W. Grant observa que esta blasfêmia representa mais que um fruto da igno­rância, sendo uma aberta oposição a Deus e a tudo que é divino. Uma palavra falada contra o Filho do Homem podia ser perdoada: a condição humilde que Ele assumira ocultava a sua glória aos olhos carnais. Mas havia o que precisava ser reconhecido e não era possível ocultar.
O ódio manifesto por pessoas esclarecidas não podia ser perdoado. O pecado eterno é a atitude de quem, pro­positadamente e em desafio à luz e ao conhecimento, rejeita e persevera em rejeitar os esforços do Espírito Santo e a graça oferecida pelo Evangelho. Tal estado, para quem nele persevera sem arrependimento, exclui o perdão, porque é o pecado para a morte referido em 1 João 5.16: "Há pecado para morte, e por esse não digo que ore". Persistir nesse erro é perecer sem misericórdia, ainda que o Deus de toda a graça faça tudo para evitar tal desenlace. ([2])

Pecado contra o Espírito Santo: a Criatura sem Intercessor

Vários aspectos, e todos eles com justificativas con­vincentes, demonstram ser a blasfêmia contra o Espírito Santo um pecado imperdoável:
    Pecando o homem contra Deus, Jesus intercederá por ele junto ao Pai: "Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo" (1 Jo 2.2). Na posição de Sumo Sacer­dote, Jesus intercede perante Deus pelos "transgressores" e pelos "santos" (Is 53.12; Hb 7.25).
    Pecando o homem contra Jesus, o Espírito Santo intercederá por ele junto ao Filho de Deus (cf. Jo 16.8; Rm 8.26).
    Pecando o homem contra o Espírito Santo, quem intercederá por ele? Ninguém! Eis aí a razão por que tal criatura se torna ré de juízo eterno .
Era esta, sem dúvida, a advertência de Jesus a seus inimigos. Entretanto, aquelas autoridades religiosas não entenderam. O "deus deste século" cegara os entendi­mentos daquela gente, e eles não puderam ver "a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus" (2 Cr 4.4).
Parece que tal conduta resulta de um processo de rebeldia contra Deus. Não se pode imaginar alguém agir assim sem conhecer os princípios que mostram se algo procede de Deus ou do príncipe das trevas: "Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis" (Rm 1.19,20).

Pode um Cristão Blasfemar contra o Espírito Santo?

De acordo com o ensinamento geral da Bíblia, enten­demos que jamais uma pessoa cristã cometeu tal pecado, especialmente aqueles que pensam que o fizeram. Quem blasfema contra o Espírito Santo jamais terá consciência de que o fez.
O Dr. Geo Goodman oferece uma explicação anima­dora para aqueles cristãos que imaginam ter cometido tal pecado. Como muitos cristãos têm sido perturbados e mesmo alarmados com esta possibilidade, pensemos a respeito:
   Não é ela para perturbar a consciência impressionável, pois ter uma consciência sensível é estar na condição espiritual diametralmente oposta. O blasfemo aqui referi­do é uma pessoa cuja consciência está cauterizada como que por um ferro em brasa.
   Não se refere a alguém cair em tentação, a um pecado ou pecados; é mais uma atitude de espírito do que mesmo um ato.
   Não significa uma simples palavra irrefletida ou descuidada, embora blasfema, porque blasfêmias e peca­dos semelhantes podem ser perdoados.
• Não significa meramente atribuir a obra de Cristo ao poder das trevas, como no caso citado - embora isso já seja um sintoma muito perigoso. Contudo, ainda não é o próprio crime. Foi por terem os fariseus e escribas feito isso que Cristo apontou o perigo em que estavam caindo.
O Senhor Jesus advertiu os escribas e fariseus sobre o tenebroso perigo da rejeição de suas almas com vistas ao mundo vindouro. Eles, em suas interpretações, atribuí­ram ao reino das trevas a redenção que Jesus trouxe.
A expulsão dos demônios pelo poder divino era sinal de que o Reino de Deus havia chegado no mundo com todo o seu peso de poder e glória.
Do outro lado, as acusações que os mestres judaicos dirigiram contra Jesus importam em negação do poder e da grandeza do Espírito Santo de Deus como Ser Supre­mo.
E, ao atribuírem origem demoníaca à atuação do Se­nhor, revelaram perversidade de espírito que, desafiando a verdade, prefere chamar de trevas a própria Luz. Nesse contexto, a blasfêmia contra o Espírito Santo denota re­jeição consciente e deliberada do poder e da graça salvadora de Deus, demonstrados e concretizados medi­ante as palavras e atos de Jesus. No pensamento de W. L. Lanne, a blasfêmia é, portanto, algo muito mais sério do que tomar em vão o nome divino.

A Blasfêmia Perdoada

Jesus afirma, em Mateus 12.31, que "todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens"; e, em Marcos 3.28, acrescenta: "... toda sorte de blasfêmias, com que blasfe­marem" - inclusive a blasfêmia contra o Filho do ho­mem!
Imperdoável, aqui e na eternidade, somente a blasfê­mia contra o Espírito Santo. Quanto a blasfêmia contra Deus, o Pai, não se diz explicitamente que pode ser perdoada. Alguns acreditam que sim. Outros opinam que não.
No Antigo Testamento, era punido com a morte quem blasfemasse contra o nome santo de Deus. Antes mesmo de Israel ter entrado na Terra Prometida, o filho de uma mulher israelita com um egípcio foi preso e depois ape­drejado por ter praticado tal ato: "E disse Moisés aos filhos de Israel que levassem o que tinha blasfemado para fora do arraial e o apedrejassem com pedras; e fizeram os filhos de Israel como o Senhor ordenara a Moisés" (Lv 24.23).
A blasfêmia dirigida contra Jesus podia ser perdoada, em razão de sua encarnação, pois Ele "aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhan­te aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz" (Fp 2.7,8). Não é o caso de Deus Pai. Assim, cabe bendizer o seu nome santo, e glorificá-lo!
Não sabemos, porque isto ultrapassa a compreensão humana, se alguém que tenha blasfemado contra o Espí­rito Santo pode ser perdoado por Deus, mediante um pedido de clemência do próprio Espírito Santo em favor de tal criatura. "Para Deus nada é impossível" (Lc 1.37).
Com efeito, este é um campo que pertence somente a Deus! Não nos cabe especular.

 Blasfêmia no Sentido Escatológico

Apocalipse 13.6 diz que a Besta que "subiu do mar... abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu". Esta figura sombria blasfemará dos "poderes do mundo superior", ridicularizando sua própria existência. Quando Antíoco Epifânio IV conquistou o poder, seu alvo principal foi blasfemar o tabernáculo de Jerusalém.
Durante sua vida terrena, o Senhor Jesus foi alvo cons­tante das grandes blasfêmias dos obstinados fariseus.
O Espírito Santo também será objeto das blasfêmias do Anticristo. Seu objetivo será vilipendiar o nome santo de Deus e de seu Filho, Jesus Cristo - o que atinge, conseqüentemente, a dignidade do Espírito Santo, con­forme implícito na frase "... e dos que habitam no céu".
A palavra "igreja" - ou "igrejas" - aparece 19 vezes nos três primeiros capítulos de Apocalipse, mas depois só reaparece em Apocalipse 22.16. As duas últimas cita­ções, em 3.22 e 22.16 (cf. v. 17), estão associadas ao Espírito Santo.
Este vínculo indica que o Espírito Santo subirá com a Igreja, por ocasião do arrebatamento. Diz Apocalipse 14.13 que uma "voz" partiu "do céu", anunciando a se­gunda bem-aventurança das sete que o livro contém, identificada como a do Espírito Santo. Isto prova que, no período da "angústia de Jacó", o Espírito Santo fará parte daqueles "que habitam no céu". O dragão, que ora incita os homens a dirigir palavras blasfemas contra o Espírito de Deus, o fará novamente naquele tempo, por meio da "besta que subiu do mar".
O destino final da Besta e de seu consorte, o falso profeta, será o "lago de fogo" (Ap 19.20; 20.10).
Assim Deus punirá "todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele" (Jd 15), "principalmente aqueles que segundo a carne andam em concupiscências de imundícia, e desprezam as dominações... não receiam blasfemar das autoridades" (2 Pe 2.10).
Apesar de tudo, Deus ama essas pessoas. Porque Deus ama a todos! E, "não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se" (2 Pe 3.9), conclama "a todos os homens, em todo o lugar, que se arrependam" (At 17.30).



[1] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado. Milenium, 1982.
[2] McNAIR, S. E. A Bíblia Explicada. Rio de Janeiro, CPAD, 1994.

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