As Três Atitudes do Crente.

Para. que a vida de um crente seja agradável a Deus, é preciso que esteja adequadamente ajustada ao Senhor, em todos os sentidos. É muito freqüente colocarmos toda ênfase, quan­do nos dedicamos à aplicação desse princípio, em algum pormenor solitário de nosso compor­tamento ou de nosso trabalho cristão.
É por isso que falhamos, com freqüência, ao não conseguir apreciar devidamente toda a ex­tensão do ajustamento requerido pelo Senhor, ou às vezes, não descobrirmos o ponto por onde deveríamos começar. Entretanto, Deus avalia todas as coisas, do princípio ao fim, segundo a perfeição de seu Filho. As Escrituras afirmam com clareza que a alegria do Senhor está em "fazer convergir em Cristo todas as coisas... em quem também fomos feitos herança" (Efésios 1:9-11).
Eis, pois, minha oração fervorosa: Que nas páginas que se seguem, nossos olhos possam ser abertos de modo especial para que consiga­mos ver que só podemos perceber o propósito divino para nós quando colocamos toda a ênfase nele. Isto também está resumido em Efésios (1:12): "a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo".
Como contexto de nossos pensamentos, to­maremos a carta de Paulo aos Efésios.
À semelhança de várias das cartas de Paulo, esta se divide de modo natural em duas seções: a doutrinária e a prática. A seção doutrinária (capí­tulos 1 a 3) relaciona-se principalmente com os grandes fatos da redenção que Deus executou para nós em Cristo. A seção prática (capítulos 4 a 6) prossegue apresentando-nos as exigências, em termos de conduta e zelo cristãos, que Deus impõe sobre nós à luz da redenção. Essas duas seções relacionam-se intimamente, mas veremos que a ênfase difere em cada seção.
A segunda porção da carta, obviamente mais prática, pode ser subdividida para nossa conve­niência, de acordo com o assunto, em duas seções: a primeira é longa, indo de 4:1 até 6:9, e a segunda bem mais curta, vai de 6:10 até o fim. A primeira parte trata de nossa vida neste mun­do; a segunda, de nosso conflito com o diabo.
Assim é que temos, ao todo, três divisões na carta aos Efésios, as quais estabelecem:
(1) a posição do crente em Cristo (1-3:21); (2) a vida do crente neste mundo (4:1-6:9); e (3) a atitude do crente diante do inimigo (6:10-24). Podemos resumir isto da seguinte maneira:
EFÉSIOS
A. Doutrina (capítulos 1 a 3)
1. Nossa posição em Cristo (1:1-3:21)
B. Prática (Capítulos 4 a 6)
2. Nossa vida no mundo (4:1-6:9)
3. Nossa atitude com relação ao inimigo
(6:10-24)

Dentre todas as cartas de Paulo, Efésios é aquela em que encontramos as mais elevadas verdades espirituais a respeito da vida cristã. A carta é rica de gemas espirituais e, ao mesmo tempo, é intensamente prática. A primeira meta­de da carta revela nossa vida em Cristo como sendo vida de união com Ele nos mais elevados reinos celestiais. A segunda metade da carta nos mostra, em termos práticos, como tal vida celestial deve ser vivida aqui na terra. Não nos propomos estudar a carta em todas as suas minúcias. Entretanto, abordaremos alguns prin­cípios que fundamentam seu conteúdo, o cora­ção da carta. Para esse propósito, selecionare­mos uma palavra-chave de cada uma de suas seções, a fim de expressar o que acreditamos ser sua principal idéia.
Na primeira seção da carta notamos a pala­vra assentar (2:6), a palavra-chave dessa seção, o segredo da verdadeira experiência cristã. Deus nos fez assentar com Cristo nos lugares celestiais, de modo que todo crente deve começar sua vida espiritual ali, nesse lugar de repouso.
Na segunda parte, selecionamos a palavra andeis (4:1), a qual exprime nossa vida neste mundo, assunto dessa seção. Somos desafiados aqui a demonstrar nossa conduta cristã, nosso comportamento coerente com tão elevada voca­ção.
Finalmente, na terceira seção, encontramos a chave de nossa atitude perante nosso inimigo, a qual está contida na palavra firmes (6:11), a qual expressa nosso triunfo final. Assim é que temos, então: 
 1. Nossa posição em Cristo - assentar (2:6)
2. Nossa vida no mundo - andeis (4:1)
3. Nossa atitude para com o inimigo - firmes (6:11)
A vida do crente sempre apresenta estes três aspectos: um que se refere a Deus, outro ao ser humano e o outro aos poderes satânicos. Se ele quiser ser útil nas mãos de Deus, deve ajustar-se de modo adequado com respeito a esses três aspectos: sua posição, sua vida e sua guerra. O crente deixa de atender às exigências de Deus a partir do momento em que subestima a impor­tância de qualquer desses elementos, pois, cada um deles constitui um campo no qual Deus expressa "louvor e glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado" (1:6). Tomaremos, pois, essas três palavras — assentar, andeis, firmes — como guias para o ­ensino total da carta aos Efésios, e como o texto onde se insere a mensagem para nossos cora­ções. Verificaremos que será sumamente instru­tivo observar a ordem em que aparecem, bem como as conexões que as unem entre si.

          1


"Assentar"


Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo... que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus, acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro (1:17-21).

E nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez ASSENTAR nas regiões celestiais, em Cristo Jesus... pois é pela graça que sois salvos, por meio da fé -e isto não vem de vós, é dom de Deus não das obras, para que ninguém se glorie (2:6-9).

"Deus... ressuscitando-o dentre os mortos, fazendo-o sentar-se ... e nos fez ASSENTAR nas regiões celestiais [com] Cristo Jesus". Como dissemos, esta passagem revela o segredo de uma vida celestial. A vida cristã não começa com o andar; começa com o assentar.
A era cristã iniciou-se com Cristo. Sobre Cristo ficamos sabendo que depois de ter "feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade nas alturas" (Hebreus 1:3).
 Com a mesma dose de verdade Podemos dizer que o crente inicia sua vida cristã "em Cristo", isto é, quando pela fé ele se vê 
  assentado ao lado de Cristo no céu.
A maioria dos crentes comete o erro de tentar andar para tornar-se capaz de assentar-se, o que contraria a verdadeira ordem. Nosso racio­cínio natural nos pergunta: se não andamos, de que modo vamos atingir o alvo? Que é que vamos conseguir sem esforço? Como chegaremos a qualquer destino se não nos movemos? Todavia, a vida cristã é engraçada! Se logo de inicio tentamos fazer alguma coisa, nada obtemos; se procuramos atingir algo, perdemos tudo. É que o cristianismo não começa com um grande FAÇA, mas com um grandioso JÁ FOI FEITO. Assim é que Efésios se inicia com a declaração de que Deus "nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo" (1:3), e somos convidados, logo de início, a assentar-nos e usufruir de tudo quanto Deus já fez por nós.
 Não devemos lançar-nos e tentar conseguir as  coisas por nós mesmos.
Andar implica esforço, mas Deus nos diz que
 somos salvos não pelas obras, mas "pela graça...
 por meio da fé" (2:8). Estamos constantemente
 falando de "salvação pela fé", mas que queremos dizer com isso? Queremos dizer o seguinte: Que  somos salvos quando repousamos em Jesus Cris­to. Nada fizemos, absolutamente, para salvar-nos a nós mesmos; apenas depositamos no Senhor o fardo de nossas almas sobrecarregadas de peca­do. Iniciamos nossa vida cristã, não dependendo de nós mesmos, de algo que fazemos, mas na dependência do que Cristo já fez. Enquanto a pessoa não proceder assim, não é um cristão.
Se alguém disser: "Nada posso fazer a fim de salvar-me; mas pela sua graça Deus já fez tudo para mim, em Cristo", terá dado o primeiro passo na vida de fé. A vida cristã, do início até o fim, baseia-se no princípio da nossa total depen­dência do Senhor Jesus. Não há limite para a graça que Deus deseja derramar sobre nós. Ele quer dar-nos tudo, mas nada poderemos rece­ber, a não ser que descansemos nele. Assentar é uma atitude de descanso. Algo foi terminado; o trabalho é paralisado, e nós nos assentamos. É paradoxal, mas verdadeiro: nós só avançamos na vida cristã se aprendermos em primeiro lugar a assentar-nos.
Que significa de fato assentar-nos? Quando caminhamos ou ficamos de pé, suportamos em nossas pernas todo o peso de. nosso corpo, mas quando nos assentamos, todo nosso peso des­cansa sobre a cadeira, ou o sofá em que nos sentamos. Nós nos cansamos depois de cami­nhar, ou ficar de pé, mas sentimo-nos repousa­dos se nos sentarmos durante algum tempo. Caminhando ou ficando de pé, despendemos muita energia, mas quando nos sentamos, nós relaxamos completamente, visto que o peso não recai sobre nossos músculos e nervos, mas so­bre algo fora de nós mesmos. Assim ocorre também no reino espiritual: Assentarmo-nos equivale a depositar nosso peso total — a nossa pessoa, nosso futuro, nossas aflições, tudo — sobre o Senhor. Deixamos que Ele assuma a responsabilidade e descansamos; deixamos de carregar aquele fardo.
Essa foi a norma de Deus, desde o início. Na criação, Deus trabalhou desde o primeiro dia até o sexto, e descansou no sétimo. Podemos dizer, sem faltar à verdade, que o Senhor trabalhou, esteve muito ocupado, durante aqueles primei­ros seis dias. A seguir, tendo terminado a obra, Ele parou de trabalhar. O sétimo dia tornou-se o dia de descanso do Senhor; foi o repouso do Senhor.
  Mas que diremos de Adão? Qual teria sido sua posição em relação ao descanso de Deus? Ficamos sabendo que Adão foi criado no sexto dia. Fica bem claro, então, que Adão nada teve que ver com os primeiros seis dias de trabalho, visto que ele só veio a existir no fim da obra. O sétimo dia de Deus foi, na verdade, o primeiro dia de Adão.
Deus trabalhou seis dias e depois disso
usu­fruiu seu descanso. Adão iniciou sua vida com o descanso; Deus trabalhou antes de descansar, mas o homem precisa primeiro entrar no des­canso de Deus, e só depois disso é que pode trabalhar. Além do mais, só porque a obra de Deus na criação estava terminada é que a vida de Adão poderia iniciar-se com o repouso. E aqui temos o evangelho: Deus caminhou um pouco mais e completou também a obra de redenção, e nós nada podemos (nem precisamos) fazer para merecê-la, mas podemos pela fé receber as bên­çãos de sua obra terminada.
É claro que nós sabemos que entre esses dois fatos históricos, entre o repouso de Deus na criação e o repouso de Deus na redenção, está toda a história trágica do pecado e julgamento de Adão, e do labor incessante e improdutivo do homem, e da vinda do Filho de Deus, com o objetivo de trabalhar duramente e entregar-se por nós, até que nossa posição perdida fosse recuperada.
"Meu pai trabalha até agora, e eu trabalho também", explicou o Senhor, durante seu minis­tério. Só depois de pago o preço da expiação, poderia Jesus dizer: "Está consumado".
A analogia que estamos traçando só é verdadeira, entretanto, por causa desse clamor de triunfo. O cristianismo na verdade significa que Deus fez tudo em Cristo, e que nós apenas penetramos nessa realidade para usufruí-la, mediante a fé. A palavra-chave aqui não é, evidentemente, no contexto, a ordem para que nos "assentemos", mas que nos vejamos "assen­tados" em Cristo.
Paulo ora para que os olhos de nosso
enten­dimento sejam iluminados (1:18), a fim de com­preendermos tudo a respeito desse fato duplo: Que Deus, pelo seu infinito poder, primeiro fê-lo (a Cristo) "sentar-se à sua direita nos céus" (1:20) e, depois, pela sua graça, "nos fez assentar nas regiões celestiais, em Cristo Jesus" (2:6). A primeira lição que devemos aprender, portanto, é esta: Que o trabalho não é inicialmente nosso, mas do Senhor.
Não se trata de nós trabalharmos para Deus, mas de Deus trabalhar para nós. Deus nos nossa posição de repouso. Ele nos traz a obra terminada de seu Filho e no-la apresenta, dizen­do: "Por favor, sente-se". Penso que a oferta de Deus a nós não pode ser expressa de melhor forma do que nas palavras do convite para o grandioso banquete: "Vinde, pois tudo já está pronto" (Lucas 14:17). Nossa vida cristã inicia -se com a descoberta das coisas que Deus já havia providenciado para nós.


A Extensão da Obra de Deus Terminada

A partir deste ponto, a experiência cristã continua da forma como iniciou, não com base em nosso próprio trabalho, mas sempre baseada na obra concluída de Cristo. Todas as novas experiências espirituais se iniciam com a aceita­rão pela fé da obra realizada por Deus — se você preferir, com um novo "assentar-se". Este é um princípio da vida, algo que o próprio Deus determinou; e do princípio ao fim, cada estágio suces­sivo da vida cristã obedece ao mesmo princípio estipulado por Deus.
Como posso eu receber o poder do Espírito, para o serviço? Devo pôr-me a trabalhar e esforçar-me a fim de recebê-lo? Devo implorar a Deus que me conceda? Devo afligir minha alma com jejuns e autonegações a fim de merecê-lo? Jamais! Não é esse o ensino das Escrituras. Pense um pouco: Como foi que recebemos o perdão de nossos pecados? Diz-nos Paulo que foi "segundo as riquezas da sua graça" que Ele "nos deu gratuitamente no Amado" (1:6-7). Nada fizemos para merecê-lo. Fomos redimidos pelo sangue de Cristo, ou seja, temos redenção pelo que o Senhor fez.
Qual é, então, o critério de Deus para o derramamento de seu Espírito? É a exaltação do Senhor Jesus (Atos 2:33). Porque Cristo morreu na cruz, meus pecados foram perdoados; porque Ele foi exaltado e colocado no trono, recebo poder do alto. Nem uma nem outra dádiva dependem do que eu sou, nem do que eu faço. Jamais mereci o perdão, e jamais mereci o dom do Espírito. Recebo tudo, não mediante o andar, mas mediante o assentar, não pelo que eu faço, mas porque eu descanso no Senhor. Daí se conclui que assim como não há necessidade de esperar pela experiência inicial da salvação, tampouco há necessidade de esperar o derrama­mento do Espírito.
Permita-me assegurar-lhe que você não
pre­cisa implorar a Deus essa dádiva, você não precisa agonizar, nem engajar-se em "reuniões demoradas de espera". Essa dádiva lhe pertence não por causa de algo que você tenha feito, mas por causa da exaltação de Cristo, pois "tendo nele crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa". Este selo, tanto quanto o perdão de pecados, já vem embutido no "evangelho da vossa salvação" (1:13).
Vamos ainda considerar outro assunto, algo que constitui um tema especial de Efésios: De que forma nos tornamos membros de Cristo? Que é que faz que sejamos dignos de nos tornarmos parte daquele Corpo de que Paulo fala, como sendo "a plenitude daquele que enche tudo em todos" (1:23)? É certo que jamais chegaríamos a tal ponto andando. Não me uno ao Senhor medi­ante meus próprios esforços. "Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação" (4:4).
Efésios estabelece a realidade. Esta começa em Jesus Cristo, e com o fato de que Deus nos escolheu nele antes da fundação do mundo (1:4). Quando o Espírito Santo nos revela Cristo e nós cremos nele, imediatamente, sem que haja necessidade de qualquer ato de nossa parte, inicia-se uma vida de união com o Senhor.
Todavia, se todas essas coisas se tornam nossas apenas pela fé, que diremos a respeito da questão importantíssima e muito prática de nossa santificação? De que forma podemos co­nhecer a libertação real, agora, da escravidão do Pecado? De que modo o "velho homem", que nos Perseguiu e nos perturbou durante tantos anos. Pode ser "crucificado", deslocado e descartado? Novamente descobrimos que o segredo não está em andar, mas em assentar-nos; não em fazer algo, mas em descansar em algo que já foi feito.
"Estamos mortos para o pecado". "Fomos batizados na sua morte". "Fomos sepultados com ele". [Deus] "nos ressuscitou juntamente com Cristo" (Romanos 6:2,3,4; Efésios 2:5). To­dos esses acontecimentos estão descritos no passado. Por quê? Porque o Senhor Jesus foi crucificado fora de Jerusalém há quase 2.000 anos, e eu fui crucificado com ele. Eis o grandioso fato histórico. A experiência de Cristo tornou-se minha história espiritual, e Deus pode referir-se a mim como tendo eu já todas as coisas "nele".
Tudo quanto eu tenho agora, eu o tenho "em  Cristo". Nas Escrituras nós nunca encontramos estes fatos descritos no futuro, e tampouco como sendo desejadas no presente. São fatos históri­cos de Cristo, e nós, os que cremos, penetramos neles pela fé.
 "Com Cristo" — crucificados, mortos, ressurretos, assentados nas regiões celestiais.
Para mente humana, todas.estas idéias são tão enigmáticas quanto aquelas palavras de Jesus, dirigidas a Nicodemos, em João 3:3. Ali a ques­tão era como nascer de novo. Aqui, trata-se de algo mais improvável ainda: algo que não só deve realizar-se em nós, como o novo nascimento, mas que deve ser visto e aceito como pertencente a nós, porque já se realizou em alguém, em Cristo, há muito.
  Como podem essas coisas todas ser assim? Que milagre é esse? Não podemos explicá-lo. Devemos recebê-lo da parte de Deus como algo que o Senhor mesmo fez. Nós não nascemos com Cristo, mas fomos crucificados com ele (Gálatas 2:20). Portanto, nossa união com Cristo teve início em sua morte. Deus nos incluiu em Cristo, na morte de cruz. Estávamos "com Ele" porque estávamos "nele".
Mas como posso ter certeza de que estou "em Cristo"? Posso ter certeza porque a Bíblia afirma que assim é, e que foi Deus quem me pôs nele. "Vós sois dele [de Deus] em Jesus Cristo" (1 Coríntios 1:30). "Aquele que nos confirma convosco em Cristo... é Deus" (2 Coríntios 1:21). Trata-se de algo realizado por Deus, em sua soberana sabedoria, para ser visto, crido, aceito e usufruído por nós.
Se eu colocar uma nota de um real entre as páginas de uma revista, e em seguida, se eu queimar essa revista, onde foi parar a nota de um real? Recebeu o mesmo destino da revista — transformou-se em cinzas. Aonde vai um, vai o outro. A história de ambos tornou-se uma só. Da mesma forma, efetivamente Deus nos colocou em Cristo. O que aconteceu a Cristo, aconteceu a nós também. Todas as experiências de Cristo tornaram-se nossas experiências também, em Cristo. "O nosso velho homem foi com ele cruci­ficado, para que o corpo do pecado seja desfeito, a fim de não servirmos mais ao pecado"
 (Roma­nos 6:6).
Esta não é uma exortação para que lutemos. Tudo isto é história: Nossa história foi escrita em Cristo antes que houvéssemos nascido. Você crê nesta realidade? É a verdade! Nossa crucificação com Cristo é um glorioso fato histórico. Nossa libertação do pecado
baseia-se não naquilo que podemos fazer, nem naquilo que Deus vai fazer Por nós, mas naquilo que Ele já fez por nós em Cristo. Quando este fato penetra em nossa
consciência e nós repousamos nele
(Romanos 6:11),  temos descoberto o segredo da vida santificada.  Mas a verdade é que conhecemos muito pou­co a respeito dessa realidade, em nossa própria  experiência. Considere este exemplo. Se alguém  fizer uma observação mordaz a seu respeito, e em sua presença, como você enfrenta a situa­ção? Você aperta os lábios, morde-se por dentro, "engole um sapo" e se controla; se com muito esforço você consegue controlar todos os sinais de seu ressentimento e mostrar-se razoavelmente polido, em troca do desaforo, você acha que alcançou uma grande vitória. Entretanto, o ressentimento ainda está lá; foi apenas coberto. Às vezes você nem sequer consegue disfarçá-lo bem.
Qual é o problema? O problema é que você tentou andar antes de assentar; é aí que está, com toda certeza, a derrota. Permita-me repetir: Nenhuma experiência cristã inicia-se com o caminhar, mas sempre com um definitivo assen­tar. O segredo da libertação do pecado não está em a pessoa fazer algo, mas em descansar naquilo que Deus já fez.     Um engenheiro que morava numa grande
 cidade no ocidente saiu de sua terra e foi para o oriente. Ele esteve longe de casa durante dois ou três anos e, durante sua ausência, sua esposa lhe foi infiel. Cometeu adultério com um dos melhores amigos do marido. Quando o marido voltou a casa, descobriu que havia perdido a esposa, seus dois filhos e seu melhor amigo. No final de uma reunião em que eu havia falado, esse homem ferido desabafou para mim. "Faz dois anos que todos os dias e todas as noites meu coração tem estado cheio de ódio", disse-me ele. "Eu sou cristão, e sei que devo perdoar a minha esposa e ao meu amigo, mas embora eu tente perdoar-lhes, e continue tentando, simplesmen­te não consigo. Todos os dias resolvo perdoar-lhes e todos os dias eu falho. Que é que eu posso fazer?" Eu lhe disse: "Não faça absolutamente nada". "Que é que o senhor quer dizer com isso?" perguntou-me ele, espantado. "Devo continuar odiando-os?"
Então eu lhe expliquei: "A solução de seu problema está aqui, em que quando Jesus mor­reu na cruz, não apenas Ele levou consigo os seus pecados, mas levou você junto. Quando Ele foi crucificado, seu velho homem foi crucificado nele, de modo que aquela pessoa "em você" que não consegue perdoar, o velho homem que não consegue amar aos que o prejudicaram tão gravemente, foi tirado do caminho, quando Cris­to morreu. Deus cuidou dessa situação horroro­sa quando Cristo morreu na cruz, nada sobran­do para você fazer. Simplesmente diga a Ele: "Senhor, não consigo amar, e desisto de ficar tentando, tentando sem parar, mas confio em teu perfeito amor. Não consigo perdoar, mas confio em que tu podes perdoar em meu lugar, e fazer isso daqui por diante, em mim".
O homem ficou ali, sentado, muito espanta­do, dizendo: "Isso é novidade para mim. Acho que devo fazer alguma coisa." A seguir, um pouco depois, ele acrescentou: "Mas que é que eu posso fazer?" Disse-lhe eu, então: "Deus está esperando que você pare de tentar fazer alguma coisa. Você já tentou salvar uma pessoa que se afogava? O problema do afogado é que seu medo o impede de confiar plenamente em você. Nesse caso, há apenas dois caminhos a tomar: ou você lhe dá um soco de modo que ele fique inconsci­ente, e você consiga arrastá-lo para fora da água, ou você o deixa lutar e gritar até que suas forças se acabem, e você possa então salvá-lo. Se você tentar salvar o afogado que ainda está cheio de força, ele se agarrará a você, em seu terror, e o arrastará para o fundo, e os dois, você e ele, perecerão afogados. Deus está esperando que suas forças se esgotem de todo, antes de poder salvá-lo. Desde que você tenha cessado de lutar, Deus fará a obra. Deus está esperando que você perca toda a esperança".
Meu amigo engenheiro deu um salto. "Ir­mão," disse-me ele, "já entendi tudo. Louvado seja Deus, as coisas estão claras agora. Não há nada que eu possa fazer. Ele já fez tudo, tudo!" De face radiante, ele partiu, cheio de regozijo.

               Deus, Que Nos Dá Tudo
  De todas as parábolas dos evangelhos, a do filho pródigo constitui, creio eu, a suprema ilustração da maneira de agradarmos a Deus.
Assim disse o pai: "Era justo alegrarmo-nos e
folgarmos" (Lucas 15:32). Com estas palavras Jesus nos  revela o que é que, de modo supremo, na esfera da redenção, alegra o coração de seu Pai. Não é o irmão mais velho que trabalha sem cessar para o pai, mas o irmão mais novo que permite que o pai faça tudo por ele. Não é o irmão mais velho que sempre quer ser aquele que dá, mas o irmão mais novo que está sempre disposto receber.
  Quando o pródigo voltou para casa, tendo Despendido suas forças e seus bens, numa vida de dissolução, o pai não proferiu uma palavra de  recriminação contra a passada luxúria do filho, nem uma única palavra a respeito da perda dos bens. O pai não se entristeceu por causa das perdas; apenas alegrou-se pela oportunidade que o retorno do filho lhe concedia de gastar mais ainda com ele.
Deus é tão rico que sua principal alegria consiste em dar. Suas câmaras de tesouros estão tão repletas que lhe dói o fato de nós nos recusarmos a dar-lhe a oportunidade de despe­jar sobre nossas vidas as riquezas que Ele arma­zenou para os seus servos. A alegria do pai foi poder ver no filho pródigo alguém que poderia usar a melhor túnica, o anel, as sandálias e ser homenageado com um banquete. A tristeza do pai foi que o filho mais velho não se posicionou para receber tantas bênçãos.
Há tristeza para o Pai quando nós tentamos fazer coisas para Ele. Ele é riquíssimo.
Dá-lhe verdadeira e imensa alegria o fato de permitir­mos a Ele que nos dê, e continue a dar-nos sem parar. Constitui grande tristeza para o Senhor o fato de nós tentarmos jazer coisas para Ele, pois Deus é absolutamente capaz, e soberano. Ele almeja que nós apenas deixemos que Ele faça, e vá fazendo e continue a fazer coisas por nós. Deus quer ser eternamente aquele que nos dá. Ele quer ser eternamente aquele que faz coisas por nós. Se apenas pudéssemos ver como Ele é rico, como é grandioso, deixaríamos em suas mãos a tarefa de dar e de fazer.
Crê você que se parar de tentar agradar a
 Deus, seu bom comportamento vai cessar? Se você interromper a tentativa de dar, e a tentativa de fazer coisas, e deixar tudo nas mãos de Deus, você acha que os resultados serão menos satisfatórios do que se você se esforçasse nessas atividades para Deus? Quando nós procuramos fazer essas coisas por nós mesmos, colocamo-nos de volta debaixo da lei. Todavia as obras da lei, ainda que sejam nossas melhores obras, nossos melhores esforços, não passam de "obras mortas", abomináveis diante de Deus, porque não são eficazes.
  Nessa parábola, ambos os filhos estavam igualmente longe das alegrias do lar provido pelo Pai. É verdade que o filho mais velho não estava longe, num país estrangeiro; mas estava em casa apenas teoricamente. "Olha, sirvo-te há tantos anos, sem nunca transgredir o teu man­damento, e nunca me deste..." O coração desse filho nunca encontrou descanso. Sua posição teórica jamais poderia constituir motivo de gozo, como era o caso do irmão menor, visto que o irmão mais velho estava preso às suas boas obras.
 Então, pare de "dar" e você comprovará que Deus gosta de dar. Pare de "trabalhar" e você descobrirá que Deus trabalha por você. O filho mais novo estava bastante errado, mas voltou para casa e encontrou descanso, e é aí que a vida cristã se inicia.
 "Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou... nos fez assentar nas regiões celestiais, em Cristo Jesus" (Efésios 2:4,6). "Era justo
alegrarmo-nos e folgarmos"!



























2



“Andeis”



Procuramos deixar bem claro que a vida cristã não se inicia com o andar, mas com o assentar. Todas as vezes que invertemos a
or­dem, os resultados são desastrosos. O Senhor Jesus fez tudo por nós, e nossa necessidade agora é de descanso confiante nele. O Senhor está assentado em seu trono, e somos conduzi­dos pelo seu poder. Toda experiência espiritual verdadeira, santificadora, começa nesse des­canso.
Todavia, a vida cristã não termina aqui. Embora a vida cristã comece no processo de assentar, esse assentar sempre é seguido do andar. Só depois de havermos assentado de verdade, e havermos descoberto nossa força no ato de assentar, é que de fato podemos começar a andar. O assentar representa nossa posição em Cristo, no céu. O andar em Cristo representa nosso desempenho dessa posição divina aqui na terra. Sendo um povo celestial, de nós Deus exige que exibamos o selo dessa habitação celestial em nossa conduta terrena, e isso levan­ta; novos problemas.
Devemos, portanto, perguntar-nos: Que é que Efésios tem a dizer-nos a respeito de nosso
andar? Descobriremos que essa carta nos exorta a fazer duas coisas: Trataremos agora da primei­ra delas.
    Portanto, como prisioneiro do Senhor, rogo-vos
que andeis como é digno da vocação com que fostes
chamados, com toda humildade e mansidão, com
longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor... (4:1.2)

Portanto, digo isto... que não andeis mais como andam os outros gentios, na vaidade, do seu pensamento... e vos renoveis no espírito do vosso entendi­mento (4:17,23).

    Andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós (5:2).

Andai como filhos da luz... descobrindo o que é agradável ao Senhor(5:8, 10).

  A palavra "andar" é usada oito vezes em Efésios. Significa literalmente "andar ao redor", sendo usada aqui de modo figurado por Paulo, para significar "transportar-se a si próprio", "ordenar alguém seu próprio comportamento". Tal sentido traz imediatamente diante de nós o assunto da conduta cristã, de que a segunda parte da carta trata com profundidade. Todavia, vimos anteriormente que o Corpo de Cristo, a comunidade dos crentes em Cristo, é o outro grande tema da carta aos Efésios.
Agora, no capítulo 4, é em função de tal comunidade que encontramos essa questão de andar piedosamente. E prossegue Paulo, à luz de nossa vocação celestial, a desafiar-nos no campo total de nossos relacionamentos domés­ticos e públicos, quando os crentes se relacio­nam com vizinhos, os maridos com suas espo­sas, quando nos relacionamos com pais e filhos, com patrões e empregados — tudo isso da forma mais real possível.
Vamos deixar bem claro que o Corpo de Cristo não é algo remoto e irreal, que expressaríamos apenas em termos celestiais. É algo bem presente e muito prático, e encontra o teste real de nossa conduta em nosso relacionamento com os outros. É verdade que somos um povo celestial, mas de nada adianta falar muito do céu distante. Se não trouxermos o céu ao nosso lar e ao nosso local de trabalho, à nossa loja e à nossa cozinha, e ali o praticarmos, o céu não terá o menor sentido.
Posso então sugerir, queridos amigos, que quem é pai ou mãe, e quem é filho, que procure no Novo Testamento e verifique como os pais devem ser, e como os filhos devem agir? Talvez nos surpreendamos, pois receio que muitos de nós, que dizemos estar assentados no céu, em Cristo, demonstramos um comportamento bas­tante questionável em nosso ambiente.
Ouçam, maridos, ouçam, esposas: Há uma porção de passagens bíblicas para vocês. Leiam Efésios 5, e depois 1 Coríntios 7. Todo marido e toda esposa fariam bem em ler 1 Coríntios 7 a fim de saber o que é que o casamento cristão exige: uma vida espiritual diante de Deus, e não ape­nas na teoria, mas na prática também. Não ouse transformar em mera teoria algo que é tão
prático
 Veja agora, no campo dos relacionamentos Cristãos, como os mandamentos de Deus desta seção à nossa frente são diretos e objetivos.
rogo-vos que andeis ... com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor."
"Deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo."
"Irai-vos e não pequeis."
"Aquele que  furtava, não furte mais". "Toda a amargura... e toda malícia sejam tiradas de entre vós".
"Sede uns para com os outros benignos... perdoando-vos uns aos outros".
"Não provoqueis à ira".
"Obedecei". "[Deixai] as ameaças".
 Nada poderia ser mais objetivo do que esta lista de imperati­vos.  Permita-me lembrar a você que o Senhor Jesus iniciou seu ensino nesse mesmo tom. Observe com cuidado a linguagem desta passa­gem do sermão do monte:
Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente
por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao  homem mau. Se alguém te bater na face direita,  oferece-lhe também a outra.
E se alguém quiser demandar contigo e
 tirar- te a túnica deixa-lhe também a capa.      Se alguém te obrigar a caminhar uma milha,
vai com ele duas.
     Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.       Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
   Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus. Ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e envia a chuva sobre justos e injustos.
Se amardes os que vos amam, que
 recompen­sa tereis? Não fazem os cobradores de impostos também o mesmo?      E se saudardes somente os vossos irmãos,
que fazeis de mais? Não fazem os gentios também assim? Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus (Mateus 5:38-48).
Diz você, porém: "Eu não consigo fazer isso.
São exigências impossíveis". Talvez, à
seme­lhança de meu amigo engenheiro, você entenda que foi injustiçado e prejudicado — talvez terri­velmente prejudicado — e você não consegue perdoar. Você tem toda razão, e a ação de seu inimigo foi totalmente injusta. Amá-lo seria o ideal; porém, não é um ideal impossível.

A Perfeição do Pai

A partir daquele dia em que Adão e Eva comeram do fruto proibido do conhecimento do bem e do mal, o ser humano tem estado engajado na discussão do que é o bem e o que é o mal.
O homem natural produziu seus próprios padrões do que é certo e do que é errado, do que é justiça e do que é injustiça, e tem lutado por viver de acordo com tais padrões. É claro que sendo cristãos, somos diferentes. Mas, em que somos diferentes? Desde que nos convertemos, vem-se desenvolvendo em nós um novo sentido de justiça e, como resultado, e isso é correto. temos estado às voltas com a questão do que é bem e o que é mal. Mas será que percebemos que para nós o ponto de partida é diferente? Para nós a árvore da vida é Cristo. Nós não começamos a partir da ética do certo e do errado. Não inicia­mos com a outra árvore. Iniciamos com ele; a questão toda para nós diz respeito à Vida.
Nada tem produzido maiores danos ao nosso testemunho cristão do que nossa tentativa de sermos corretos e exigir correção dos outros. Nós nos tornamos demasiado preocupados com o que é reto e o que é torto, com o certo e o errado. "Nós nos perguntamos: Fomos tratados com jus­tiça ou com injustiça? E pensamos assim em reivindicar nossas ações. Todavia, esse não é o nosso padrão. A verdadeira questão para nós gira em torno de quem carrega a cruz. Você me pergunta: "É certo que alguém me fira a face?"  Respondo eu: "Claro que não! Mas a questão é: Você quer apenas estar certo?"  Como cristãos, nosso padrão de vida jamais pode resumir-se em "certo ou errado" — mas resume-se na cruz. O princípio da cruz é nosso princípio de conduta. Louve a Deus porque Ele deixa o sol brilhar sobre os bons e sobre os maus. Para Deus a questão é de graça, e não do que é certo ou errado. Todavia, esse deve ser nosso padrão também: "Perdoando-vos uns aos
ou­tros, como também Deus vos perdoou em Cristo" (4:32). O princípio do "certo ou errado" é dos gentios e publicanos. Minha vida deve ser gover­nada pelo princípio da cruz e da perfeição do Pai: "Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus".
 Um irmão no sul da China tinha um campo de arroz no meio da encosta de uma colina. Em tempos de seca ele usava uma bomba d'água, movida por um moinho de vento, o qual fazia elevar a água de um regato até seu campo. Um vizinho possuía dois campos que ficavam em nível inferior ao do campo desse irmão. Em certa noite, o vizinho desfez a barreira que represava a água, drenando-a toda para si. Nosso irmão preparou a brecha na barreira e bombeou mais água para sua represa, mas o vizinho voltou a praticar o mesmo malefício outras três ou quatro vezes.
     Então ele consultou seus irmãos,
perguntando-lhes: "Tenho procurado ter paciência e não me vingar", disse. "Mas isso é certo?" Depois de haverem orado a respeito do problema, um dos irmãos replicou: "Se apenas tentarmos fazer o que é certo, com toda certeza seremos cristãos muito pobres. Precisamos fazer algo mais do que sim­plesmente o que é certo".
Nosso irmão ficou impressionado. Na manhã seguinte, ele bombeou água para os dois campos lá embaixo e, de tarde, bombeou água para seu próprio campo. Depois disso, a água permane­ceu em sua represa, para molhar seu campo. O vizinho ficou tão impressionado com a ação bondosa do crente que investigou suas razões, e no devido tempo veio ele próprio a tornar-se um cristão.
Assim sendo, meu caro irmão, não finque pé em seus direitos. Não pense que porque você caminhou a segunda milha, já fez o que é justo. A segunda milha é apenas preparação para a terceira e quarta milhas. O princípio é o da conformidade com Cristo. Nada temos por que lutar, nada a pedir e nada a exigir. Só temos a dar. Quando o Senhor Jesus morreu na cruz, Ele não o fez a fim de defender nossos "direitos"; foi a graça que o levou à cruz. Agora, como seguido­res de Jesus, filhos de Deus, sempre tentamos dar aos outros o que lhes pertence, e mais ainda. Precisamos lembrar-nos de que com freqüência não temos razão. Fracassamos, e é sempre bom que aprendamos com nossos erros, que estejamos sempre prontos a confessar e dispostos a ir além do que é necessário para que confessemos. O Senhor requer isto de nós. Por quê? "Para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5:45).  É uma questão de filiação prática. Sim, é verdade que Deus "nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo" (1:5), mas cometemos o erro de pensar que "já temos idade para ter juízo", que já somos filhos amadurecidos. O sermão do monte nos ensina que os filhos correspondem à responsabilidade de filhos na medida em que manifestam afinidade de espírito e de atitude com seu Pai. Fomos chamados para sermos "perfeitos" em amor, demonstrando sua graça. Por isso é que Paulo escreve: "Sede, pois, imita­dores de Deus, como filhos amados e andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós" (5:1-2).
Enfrentamos um desafio. Mateus 5 estabele­ce um padrão que podemos julgar impossível de ser atingido, por ser demasiado elevado; e Paulo, nesta passagem de Efésios, o confirma. O pro­blema é que nós não conseguimos encontrar em nós mesmos, por natureza, os meios de atender a esse padrão — o andar "como convém a santos". Onde, então, está a resposta para o nosso problema, o das exigências rigorosas de Deus?
Nas palavras de Paulo descobrimos o
segre­do: "[Deus] é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedi­mos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera" (3:20). Numa passagem paralela (Colossenses 1:29), Paulo diz: "Para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente".
Eis-nos de volta à primeira seção de Efésios. Qual é o segredo da força que move a vida cristã? De onde vem esse poder? Deixe-me dar-lhe a resposta em uma sentença: O segredo do cristão está em ele descansar em Cristo. O poder do cristão vem da posição que Deus lhe deu. Todos quantos se assentarem poderão andar. No pen­samento de Deus, o andar vem depois do assen­tar, espontaneamente.
Nós nos assentamos para sempre com Cristo para que possamos andar continuamente dian­te dos homens. Se abandonarmos por um ins­tante nosso lugar de descanso em Cristo, caímos imediatamente e prejudicamos nosso testemu­nho perante o mundo. Mas enquanto habitar­mos em Cristo, nossa posição no Senhor nos assegura o poder de andar dignamente aqui.
Se você quer uma ilustração desse tipo de progresso, pense, em primeiro lugar, não em um atleta forte que participa de uma corrida de 10 mil metros, mas pense em um ancião que dirige um carro ou, melhor ainda, de um homem coxo sentado numa cadeira de rodas. Que faz esse pobre aleijado? Ele anda porque está assentado. O coxo consegue continuar movendo-se porque continua sentado. Todo o percurso feito se deve à posição assumida pelo coxo. É claro que esta ilustração é paupérrima, quando queremos re­tratar a vida cristã, mas talvez sirva para lembrar-nos de que nossa conduta e comportamen­to dependem fundamentalmente de nosso
des­canso íntimo em Cristo.
Isto explica a linguagem de Paulo, aqui. Ele primeiro aprendeu a assentar-se. Encontrou um lugar de descanso em Cristo. O resultado é que Paulo andava, não baseado em seus própri­os esforços, mas na operação poderosa de Deus dentro dele. Ali estava o segredo de seu poder. Paulo viu-se a si mesmo assentado em Cristo. Por isso, seu comportamento (seu andar) diante dos homens assumiu o caráter do Cristo que nele habitava. Não é de admirar, pois, que ele ore assim pelos efésios: "Cristo habite pela fé nos vossos corações" (3:17).
Como funciona o seu relógio? Será que ele primeiro se movimenta, ou primeiro é movido? É claro que ele funciona porque uma bateria foi instalada nele, que lhe fornece a energia para mover-se. Os relógios antigos precisavam de que se lhes desse corda, e só depois passavam a trabalhar. Há obras que foram preparadas para nós: "Somos feitura sua, criados em Cristo Je­sus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas" (2:10).
"Efetuai a vossa salvação com temor e tremor", escreve Paulo aos Filipenses, "pois Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (2:12, 13). Deus está operando em vós! Efetuai a vossa salvação! Aqui está o segredo. Enquanto não permitirmos que Deus opere em nós, é inútil que nós nos dediquemos a efetuar a nossa salvação. Frequentemente tentamos ser humildes e piedo­sos, sem saber o que significa permitir que Deus opere em nós a humildade e a piedade de Cristo. Tentamos demonstrar amor, mas ao descobrir que não temos amor, pedimo-lo ao Senhor. Então, nós nos surpreendemos porque aparentemente o Senhor não nos quer dar.
Permita-me trazer de novo outra ilustração. Talvez haja um irmão que você considera uma verdadeira provação. Você está constantemente tendo problemas com ele. Sempre que você se encontra com esse irmão, ele faz ou diz algo que fatalmente lhe provoca ressentimentos. Isso preocupa você. E você diz: "Sendo cristão, eu devo amá-lo. Eu quero amá-lo. Na verdade, estou determinado a amá-lo!" E assim é que você ora com todo fervor: "Senhor, aumenta meu amor por essa pessoa. Ó Deus, dá-me amor!"
A seguir, reunindo todas as forças
disponí­veis, conclamando toda a sua força de vontade, você vai com um sincero ímpeto de demonstrar àquela pessoa todo o amor pelo qual você orou. Mas, que horror! quando você entra na presença da tal pessoa, algo acontece que faz com que todas as suas boas intenções se desmoronem e dêem em nada. A reação da pessoa perante você de modo algum é encorajadora, mas ao contrá­rio, desanimadora, e de imediato o velho
ressen­timento surge à superfície e, de novo, o máximo que você consegue fazer é ser polido para com ela. Por que acontece isso? Certamente você não estava errado ao procurar amor em Deus, esta­va? Não, mas você estava errado ao buscar amor como um fim em si mesmo, uma espécie de mercadoria embrulhada, quando o plano de Deus é que o amor de seu Filho seja expresso
através de você.Deus nos deu Cristo. Agora nada mais há para nós recebermos; basta-nos Cristo.O Espírito Santo foi enviado a fim de produzir o que Cristo é, em nós; o Espírito não produzirá uma coisa alheia a Cristo, nem algo fora de Cristo. Nós somos "fortalecidos com poder pelo seu Espírito no homem interior... [para] conhecer o amor de Cristo" (3:16, 19). Mostramos externa­mente o que Deus colocou em nós internamente.
Lembremo-nos de novo daquelas grandiosas palavras de 1 Coríntios 1:30. Não só Deus colo­cou-nos "em Cristo", mas "vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção". Esta é uma das maiores e mais gloriosas decla­mações das Escrituras. Ele "para nós foi feito por Deus..." Se crermos nisto, podemos ter qualquer coisa que precisarmos, podemos ter certeza de que Deus é quem o promete, pois, mediante o Espírito Santo dentro de nós. o próprio Senhor Jesus presente dentro de nós dá-nos qualquer coisa de que necessitamos. Estamos acostuma­dos a ver na santidade uma virtude, na humilda­de uma graça e no amor, um dom que devemos buscar em Deus. Todavia, o Cristo de Deus é ele mesmo tudo de que realmente nós precisamos.
Muitas vezes em minhas necessidades eu costumava pensar em Cristo como uma Pessoa à parte, e eu deixava de identificá-lo corretamen­te; eu o confundia com as "coisas" de que eu precisava com tanta ansiedade. Durante dois anos fiquei apalpando nas trevas, procurando reunir as virtudes que eu julgava constituírem a vida cristã, e durante esse tempo não cheguei a parte alguma.
  Então, em certo dia — isso aconteceu em 1933 — a luz do céu veio a mim, e vi o Cristo vindo da parte de Deus dentro de mim, o Cristo integral. Que diferença! Ah! o vazio das "coisas"! Estão mortas se, manejadas por nós, nenhum relacionamento tiverem com Cristo. A partir do momento em que percebermos isto, haverá um novo começo para nós. uma nova vida. Teremos uma verdadeira santidade de vida, um novo amor. O próprio Cristo se revela a nós como a resposta a todas as exigências de Deus.
Volte, agora, àquele irmão difícil. Mas desta vez, antes de você ir a ele, fale a Deus desta forma: "Senhor, ficou claro para mim, finalmente, que por mim mesmo eu não conseguirei amar a essa pessoa; mas agora eu sei que existe uma vida dentro de mim, a vida de teu Filho, e sei que a lei dessa vida é o amor. Amor a Cristo." Você não precisa esforçar-se demais. Descanse em Cristo. Conte com a vida dele em você. Ouse, então, ir àquele irmão e fale a ele — e eis que vai acontecer uma coisa espantosa!
Inconscientemente (enfatizo a palavra
"in­conscientemente", pois a consciência só advém mais tarde) você se vê conversando com a pessoa de modo muito agradável; inconscientemente você passa a amar aquela pessoa; inconsciente­mente você a considera como um irmão. Você conversa com a pessoa livremente, em perfeita comunhão; você se dá conta de que ao voltar para casa, está dizendo: "Ora, não fiquei nem um pouco ansioso, e tampouco me senti irritado! De alguma forma que não consigo descrever, o Senhor esteve comigo e seu amor triunfou."
A operação da vida de Cristo em nós, num sentido verdadeiro é espontânea, quero dizer, não exige esforço de nossa parte. A regra impor­tantíssima é não "tentar", mas "confiar"; não depender de nossas próprias forças, mas do poder do Senhor. Porque é o fluxo de vida que revela o que somos verdadeiramente "em Cris­to". A água doce emana da Fonte da Vida.
Muitos crentes — muitos mesmo — são apa­nhados agindo como crentes. A vida de muitos crentes de hoje em grande parte é um jogo de faz-de-conta. Vivem uma vida "espiritual", falam uma linguagem "espiritual", adotam atitudes "espirituais", mas estão fazendo tudo isso por si mesmos. O tremendo esforço que despendem deveria revelar-lhes que algo está errado. Eles se
precisamos buscar sabedoria. Não precisamos apelar para a árvore do conhecimento. Nós te mos Cristo, o qual foi feito em nós sabedoria de Deus. A lei do Espírito de vida em Cristo Jesus comunica a nós continuamente os padrões do Senhor quanto ao que é certo e o que é errado e, com eles, a atitude espiritual com que a situação
difícil deve ser enfrentada. Inúmeras coisas surgirão para ferir nosso senso cristão de justiça, e para testar nossas
reações: De que modo reagiremos? Precisamos aprender o princípio da cruz, pois nosso padrão deixou de ser o velho homem, e tornou-se o novo homem: "quanto ao trato passado, vos despojeis do  velho homem, que se corrompe pelas concu­piscências do engano; e vos renoveis no espírito
do vosso entendimento; e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verda­deira justiça e santidade" (4:22-24). "Senhor, não  tenho direito nenhum a defender. Tudo quanto tenho me veio pela tua graça, e tudo está em Ti!"
  Conheci uma anciã, uma senhora japonesa, crente, que havia ficado perturbada por causa de um ladrão que lhe entrara em casa. À sua maneira, com fé simples, mas prática, no
Se­nhor, ela preparou uma refeição para o homem e depois lhe ofereceu suas chaves. Ele se enver­gonhou de sua ação criminosa e Deus lhe falou à consciência. Por causa do testemunho daquela cristã, o ex-ladrão hoje é crente em Cristo.   Um número muito elevado de cristãos tem excelente doutrina, mas suas vidas são uma contradição de tudo. Conhecem muito bem os capítulos 1 a 3 de Efésios, mas não põem em ação os capítulos 4 a 6. Seria melhor não ter doutrina alguma do que viver uma contradição. Ordenou-lhe Deus alguma coisa? Volte-se para Deus, atire-se a Ele, e busque nele os meios de fazer o que exige de você. Que o Senhor nos ensine que o princípio integral da vida cristã é que nos projetemos para além do que é
simples­mente certo, e façamos o que lhe agrada.

Remindo o Tempo

Todavia, ainda persiste algo que precisamos acrescentar ao que dissemos acima, quanto ao assunto de nosso andar em Cristo. Esse verbo "andar" tem, como pode parecer óbvio, outro sentido adicional. É palavra que significa
pri­mordialmente conduta, ou comportamento, mas também contém a idéia de progresso. "Andar" é "prosseguir", "continuar seguindo", pelo que gostaríamos de elaborar um pouco mais essa questão de nossa jornada na direção de um objetivo.
"Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porque os dias sãos maus. Pelo que não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor" (5:15-17).
Você vai notar que nos versículos acima existe uma associação entre a idéia de tempo e a diferença entre sabedoria e insensatez. "Andais... como sábios, remindo o tempo... não sejais insensatos." Isto é deveras importante. Desejo agora trazer à sua memória duas outras passagens em que estas coisas são semelhantemente relacionadas entre si:
"Então o reino dos céus será semelhante a
dez virgens... Cinco eram insensatas e cinco, prudentes. As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo... Mas, à meia-noite ouviu-se um grito: Ai vem o noivo, saí ao seu encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram e prepararam as suas lâmpadas. E as insensatas disseram: ... as nossas lâmpadas se apagam... E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o noivo. As virgens que estavam preparadas entraram com ele para as bodas. E fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram também as outras virgens..." (Mateus 25:1-13).
"Então olhei, e vi o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, que traziam escrito na testa o seu nome e o nome de seu Pai ... Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens. Estes são os que seguem o Cordeiro para onde quer que vai. Estes são os que dentre os homens foram comprados para ser as primícias para Deus e para o Cordeiro. Na sua boca não se achou engano; são irrepreensíveis" (Apocalipse 14:1-5).
  Há muitas passagens nas Escrituras que nos garantem que o que Deus iniciou Ele vai termi­nar. O nosso Salvador é o Salvador máximo. nenhum crente se salvará "pela metade", ainda que esta expressão possa hoje ser usada a nosso respeito, em algum sentido. Deus vai aperfeiçoar todo e qualquer ser humano que nele depositou sua  fé.
É nisto que cremos, e temos que manter em mente essa doutrina como o contexto daquilo que vamos dizer a seguir.   Oremos firmemente, juntamente com Paulo, que "aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Cristo Jesus"
(Filipenses 1:6).
 Não há limites para o poder de Deus. Ele é capaz e "poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos jubilosos e imaculados diante da sua glória" (Judas 24; e veja ainda 2 Timóteo 1:12; Efésios 3:20).
Entretanto, é quando nos voltamos para o aspecto objetivo desta questão — para sua rea­lização prática em nossas vidas, aqui e agora, na terra — que nos defrontamos com a faceta do tempo. Em Apocalipse 14 há as primícias (v. 4) e há a colheita (v. 15). Qual é a diferença entre primícias e colheita? Certamente a diferença não está na qualidade, porque os frutos todos são da mesma época e mesmo local. A diferença está apenas no momento em que amadurecem no campo. Alguns frutos atingem a maturidade antes dos demais e por isso se tornam as "primícias".
Minha cidade natal, Fuquiem, é famosa pe­las suas laranjas. Eu diria (e duvido que esteja sendo vítima de bairrismo preconceituoso) que dificilmente existem laranjas semelhantes a es­sas no mundo todo. Quando você contempla as colinas, no início da estação própria das laran­jas, todas as árvores estão verdes. Mas se você olhar com muito cuidado conseguirá detectar, espalhadas aqui e ali, laranjas douradas que brilham ao sol. É uma vista maravilhosa aquelas imensas filas de laranjeiras verdes, salpicadas de uns pontos dourados, as laranjas maduras que vão aparecendo. É quando as primícias são colhidas. Logo depois todas as árvores estarão cobertas de ouro: as laranjas maduras recobrem os campos. Mas só os primeiros frutos foram cuidadosamente colhidos a mão, e alcançam os maiores preços no mercado, com freqüência três vezes o preço normal da colheita.
Todos os crentes atingirão a maturidade, de certa forma. Mas o Cordeiro de Deus procura as primícias. As moças "prudentes" de nossa pará­bola não são as que se saíram melhor, mas são as que agiram bem, com antecedência, bem cedo. As demais também eram virgens, mas eram "insensatas". Insensatas, mas não falsas. Fo­ram ao lado das prudentes esperar o noivo. Também tinham azeite em suas lâmpadas, as quais estavam queimando e iluminando. Contu­do, não imaginaram a demora do noivo. E agora que suas lâmpadas estavam quase apagadas, não dispunham de reserva de azeite, e tampouco as demais moças podiam emprestar-lhes
com­bustível.
Algumas pessoas ficam perturbadas neste
ponto da história pelas palavras do Senhor
dirigidas a essas virgens insensatas: "Não vos
conheço". Perguntam essas pessoas como o
Senhor poderia afirmar isso a respeito delas, se representam suas verdadeiras filhas: "Tenho-vos preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo"? (2 Coríntios 11:2). Todavia, devemos reconhecer a  amplitude total do ensino desta parábola, o qual  é com toda certeza o de que existem privilégios em servir a Cristo, que seus filhos podem perder,  pelo fato de não estarem preparados logo de início, para o serviço.
Diz a parábola que as cinco chegaram à  porta e disseram: "Senhor, senhor, abre-nos a  porta!" Que porta? Certamente não é a porta da salvação. Se você estiver perdido, jamais poderá  chegar à porta do céu e nela bater. Portanto,  quando o Senhor diz: "Não vos conheço", é certo que Ele usa essas palavras em algum sentido limitado, como na seguinte ilustração:
Em Xangai, o filho de um juiz de corte
crimi­nal foi apanhado dirigindo seu carro de modo imprudente. O rapaz foi conduzido a uma corte e deparou com seu pai assentado na cadeira de juiz, no tribunal. Os procedimentos legais den­tro de um tribunal são mais ou menos os mes­mos no mundo todo, de modo que o juiz pergun­tou ao rapaz: "Qual é seu nome? Seu endereço? Sua ocupação?" e assim por diante.
Espantado, o moço voltou-se para seu pai: "Pai, você está dizendo que não me conhece?" Batendo com o martelo, o juiz (pai) respondeu severamente: "Jovem, eu não o conheço. Qual é o seu nome? Qual é o seu endereço?" É claro que o juiz não quis salientar com isso que desconhe­cia o próprio filho. Na família e no lar ele o conhecia, mas naquele lugar e naquele momento ele não o conhecia. Embora ele ainda fosse o filho daquele pai, o moço deveria ser processado e pagar sua multa.
Sim, todas as dez virgens tinham azeite em suas lâmpadas. O que distinguia as insensatas foi que não dispunham de reserva de azeite. Sendo verdadeiras cristãs, têm vida em Cristo, e dão seu testemunho diante dos homens. Mas que testemunho pobre o delas, pelo fato de viverem, digamo-lo assim, de mão no queixo! Têm o Espírito, mas não estão cheias do Espíri­to. Ao chegar uma crise precisam sair para comprar mais azeite.
E claro que, finalmente, todas as dez
chega­ram a ter suficiente azeite. A diferença, contudo, está em que as cinco prudentes tinham azeite suficiente a tempo, enquanto as insensatas, quando por fim arranjaram azeite bastante, haviam perdido o propósito para o qual o com­bustível fora criado. A questão toda gira em torno do tempo. Esse é o ponto central do ensino do Senhor, no fim da parábola, quando Ele admoesta seus discípulos a não serem meros discípulos, mas discípulos vigilantes.
"Não vos embriagueis com vinho, em que há devassidão, mas enchei-vos do Espírito" (5:18). Em Mateus 25, a questão mais importante não é se as pessoas receberam a Jesus Cristo ou não, e tampouco se o Espírito Santo veio sobre elas ou não, com seus dons carismáticos espirituais. A questão toda resume-se no azeite extra, a vasi­lha de reserva. A questão era que a luz deveria ser mantida, durante uma longa espera, não importa quão longa, por causa da demora do Noivo. A luz deve brilhar mediante o suprimento miraculoso do Espírito no íntimo do crente. (Embora na parábola haja dois elementos dife­rentes, lâmpadas e vasilhas, na realidade nós os crentes somos ao mesmo tempo lâmpadas e vasilhas).
Que crente poderia viver na eternidade no céu sem ter conhecido essa plenitude do Espírito aqui? Será que nenhuma virgem consegue esca­par dessa falta? Assim é que o Senhor está dando passos — todos os passos possíveis — para que fiquemos sabendo que precisamos agora da plenitude do Espírito. "Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir".
"Esteja sendo enchido" (plerousthe) é a
 ex­pressão incomum usada aqui (5:18), com rela­ção ao Espírito Santo. "Permiti que sejais conti­nuamente enchidos". Não se trata de uma crise, como no caso do Pentecoste, mas uma condição que deve caracterizar-nos o tempo todo. Não se trata de algo externo, mas interno. Nada tem que ver com dons espirituais, carismáticos, manifes­tações externas, mas a presença e a ação pessoal do Espírito Santo dentro de seu espírito, o que garante que a luz de sua lâmpada brilhará com força, até depois da meia-noite, e até a aurora, se necessário.                       
Além de tudo, não se trata de algo pessoal. Como o indica o versículo seguinte, com toda certeza (5:19), trata-se de algo que partilhamos com outros cristãos, em dependência mútua. É que estar "cheio do Espírito Santo" significa, na linguagem desse versículo, não meramente que os crentes estejam "cantando e salmodiando ao Senhor" mas que estejam "falando entre vós com salmos e hinos, e cânticos espirituais". Alguns de nós podemos achar fácil cantar solos, mas muito difícil cantar harmoniosamente num quarteto, ou mesmo num dueto. No entanto, a mensagem da unidade do Espírito está bem no âmago desta segunda seção de Efésios (veja-se 4:3, 15, 16). A plenitude do Espírito nos é dada para que can­temos juntos um novo cântico diante do trono (Apocalipse 14:3).
Mas, sustentemos nossa principal ênfase: Permita-me repetir o conceito de que a insensa­tez ou a prudência giram em torno deste ponto. Se você é prudente, vai procurar a plenitude bem depressa, o mais cedo possível. Mas se você é insensato, vai adiá-la indefinidamente. Alguns de nós somos pais de crianças. As crianças têm grandes diferenças de temperamento, não é mesmo? Esta obedece de imediato; aquela acha que adiando a obediência, poderá chegar a não
precisar obedecer. Veja bem: se você é tão fraco que permite à criança um meio de não obedecer prontamente, e ela consegue evitar a obediência, então essa é a criança prudente, porque adia a ação que você exige dela, e acaba não a fazendo. Todavia, se sua palavra vale bastante, se sua ordem não é de "mentirinha", mas para ser acatada, para ser obedecida, a criança prudente é a que obedece de imediato.
Tenha absoluta certeza a respeito da vontade de Deus. Se as ordens de Deus podem ser manobradas, talvez você não seja nem um pouco insensato se tentar escapar das implicações da desobediência. Todavia, se Deus é um Deus imutável, cuja vontade é imutável, seja pruden­te, amigo! Vamos remir o tempo. Procure acima de tudo ter aquela vasilha de azeite extra... "para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus" (3:19).
Esta parábola não nos responde a todas as nossas perguntas. Onde e como as virgens in­sensatas compram azeite? Não ficamos saben­do. Não nos é dito que outras providências Deus terá tomado para que todos os seus filhos final­mente fiquem amadurecidos. Este assunto não é de nossa competência. Compete-nos aqui es­tudar as primícias. Somos admoestados a pros­seguir; não somos admoestados a especular a respeito do que poderá acontecer se não prosse­guirmos.
Você não pode, ao evitar a questão, impedir a chegada da maturidade, e tampouco deixar de pagar o preço. Todavia, a sabedoria está ligada ao passar do tempo. Os prudentes "compram" o tempo. Assim como eu uso uma caneta-tinteiro antiga, que agora está cheia de tinta, em minha mão, pronta para ser usada, assim também os prudentes, ao cooperarem com o Senhor, apresentam-se como Deus os deseja: instrumentos dóceis à sua total disposição.
Considere o apóstolo Paulo. Ei-lo sempre tomado de uma paixão inflamada pelas almas. Ele viu que o propósito de Deus para nós estava envolto "na plenitude dos tempos" (1:10). Ele é um daqueles que dizem: "De antemão espera­mos em Cristo", ao descansar numa salvação que ainda será completamente revelada "nos séculos vindouros" (1:12; 2:7). E à vista de tudo isso, que é que ele faz? Ele anda. E não anda, apenas: Ele corre. "Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Filipenses 3:14).
Frequentemente, quando algumas almas
che­gam à compreensão das coisas espirituais e começam a seguir ao Senhor, o sentimento em meu coração é: "Ah! se houvessem chegado a esta conclusão cinco anos antes!" O tempo é tão curto, ainda quando prosseguimos no trabalhar Há pressão e urgência. Lembre-se, não se trata do que é que extraímos da experiência. A ques­tão principal é: que é que o Senhor deve receber agora? O Senhor precisa agora é disso: de ins­trumentos dóceis e disponíveis. Por quê? "Por­que os dias são maus". A situação é desesperadora até mesmo entre os crentes. Ah! se nos fora dado ver essa realidade!
Talvez o Senhor tenha de tratar de nós de modo drástico. Disse Paulo: "Sou um aborto." Ele havia vivido crises tremendas — as quais o levaram ao ponto em que estava agora — mas Prosseguia em frente. A questão é sempre de tempo. Deus precisa dar um jeito em nós, depressa! O tempo passa rapidamente. Mas Deus tem que operar em nós. Que nosso coração possa ser iluminado de modo que saibamos "qual seja a esperança da sua vocação", e a seguir, que possamos caminhar — na verdade, correr — como crentes que sabem "qual seja a vontade do Senhor" (1:18; 5:17). O Senhor sempre se agra­dou de almas desesperadas.
























3


"Firmes"



"No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Se­nhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo... para que possais resistir no dia mau e, tendo feito tudo, ficar firmes. Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça, e calçados os pés na preparação do evange­lho da paz, tomando... o escudo da fé... o capacete da salvação, e a espada do Espírito... orai... vigiai" (6:10-11, 13-18).
A experiência cristã inicia-se com um
assen­tar e continua com um andar, mas não para aí. Todo crente precisa aprender a ficar firme. Todos nós, crentes, precisamos estar prontos para o conflito. Precisamos saber como assentar-nos em Cristo nos lugares celestiais, e precisamos saber como andar condignamente, em Cristo, aqui na terra. Mas precisamos também saber como resistir firmes diante do inimigo. A questão do conflito nós a examinaremos agora, nesta terceira seção de Efésios (6:10-20). É o que Paulo chama de "estar firmes contra as astutas ciladas do diabo".
Contudo, vamos relembrar de novo a ordem
em que Efésios apresenta estas questões para nós. A seqüência é "assentar... andeis... firmes". É que nenhum cristão pode esperar engajar-se na guerra espiritual, no conflito das eras, sem primeiro descansar em Cristo e naquilo que Ele fez por nós. A seguir, mediante o poder do Espí­rito agindo dentro do cristão, ele passa a seguir a Cristo mediante uma vida prática e santa aqui na terra. Se o crente for deficiente em uma destas duas áreas, descobrirá que toda a conversa a respeito de uma guerra espiritual não passa realmente de conversa; ele jamais conhecerá a realidade dessa luta.
Satanás pode dar-se ao luxo de desprezar esse crente, porque este, na verdade, para nada serve. No entanto, esse mesmo crente pode fortalecer-se "no Senhor, na força de seu poder" ao tomar conhecimento, em primeiro lugar, dos valores de sua exaltação aos céus e, depois, de ter andado com Cristo (compare 6:10 com 3:16). Tendo estas duas lições bem aprendidas, o cren­te passa a apreciar o terceiro princípio da vida cristã, agora resumido numa única palavra: "firmes".
Deus tem um arquiinimigo, sob cujo poder estão incontáveis hostes de demônios e anjos decaídos, os quais procuram dominar o mundo e excluir Deus de seu próprio reino. Esse é o sentido do v. 12. É uma explicação das coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Nós só vemos "carne e sangue" armados contra nós, ou seja, um sistema mundial de reis e governos hostis, de pecadores e pessoas perversas.
Todavia, diz-nos Paulo que não é assim.
Nossa luta, diz ele, é "contra as astutas ciladas do diabo... contra as potestades, contra os poderes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais da maldade nas regiões celestes", em suma, contra os enganos do próprio Satanás. Dois tronos encontram-se em guerra. Deus afir­ma seu domínio da terra, e Satanás procura usurpar a autoridade de Deus. A Igreja é chama­da para desalojar o diabo de seu reino, e tornar Cristo o supremo Senhor de todos. Que estamos fazendo a respeito dessa guerra?
Desejo agora tratar deste assunto de nossa guerra, primeiramente em termos gerais, com relação à nossa vida cristã e, depois, de maneira especial, com relação à obra que o Senhor con­fiou a nós. Satanás desfere muitos ataques diretos contra os filhos de Deus. É claro que não devemos atribuir ao diabo aqueles problemas que são o resultado de nossa própria e delibera­da quebra das leis de Deus. Por esta altura deveríamos saber como ordenar estas coisas.
Recebemos, porém, ataques físicos,
desferi­dos contra os santos, da parte do diabo, contra seus corpos e mentes, e precisamos estar bem conscientes disso. É certo que muitos crentes ignoram o inimigo, crentes que não sabem nada sobre os assaltos dele contra nossa vida espiri­tual. Deixaremos que esses ataques fiquem sem resposta?
Temos nossa posição no Senhor, no céu, e estamos aprendendo como andar com Ele,
pe­rante o mundo; mas, como devemos proceder na presença do adversário de Deus e nosso? Diz-nos a Palavra de Deus: "Ficai firmes". "Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que Possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo". No grego é um verbo, "estar firmes", acompanhado de uma preposição "contra", no v. ll o qual realmente significa "manter o territó­rio". Nesta ordem de Deus existe uma verdade precisa, oculta. Não se trata de uma ordem para que invadamos um território estrangeiro.
A guerra implicaria, no falar comum, em ordem para que "marchemos". Os exércitos marcham e invadem outros países a fim de subjugá-los e ocupá-los. Deus não nos ordenou que agíssemos dessa forma. Não devemos mar­char, mas "ficar firmes".
 A expressão "ficar fir­mes" implica que o território disputado pelo inimigo realmente pertence a Deus e, portanto, pertence a nós. Não precisamos lutar a fim de estabelecer um forte nesse terreno.
Quase todas as armas de nossa guerra, descritas em Efésios, são puramente defensivas. Até mesmo a espada pode ser usada tanto para a defesa como para o ataque. A diferença entre a guerra defensiva e a ofensiva está aqui: na defensiva retemos o território, e basta-nos defendê-lo; na ofensiva, não temos território e lutamos a fim de
obtê-lo. E essa é exatamente a diferença existente entre a guerra promovida pelo Senhor Jesus e a guerra que nós
promove­mos. A guerra de Cristo é ofensiva; a nossa, defensiva, em essência. Cristo lutou contra Sa­tanás a fim de vencê-lo, e dar-nos a vitória. Mediante a cruz, o Senhor levou a batalha ao âmago do próprio inferno, e assim levou cativo o cativeiro (4:8, 9). Hoje a guerra contra Satanás nós a mantemos apenas para preservar e conso­lidar a vitória que Ele já obteve para nós e nos entregou. Mediante a ressurreição. Deus procla­mou seu Filho vitorioso, pois venceu o reino das trevas. O território conquistado por Cristo, o Senhor no-lo concedeu. Não precisamos lutar
para conquistá-lo. Basta-nos que o mantenha­mos, expulsando todos os que o desafiam.
Nossa tarefa consiste em manter nossa posi­ção, não em atacar. Não se trata de fazer aumen­tar o território de Cristo, mas de permanecer no território de Cristo. Deus conquistou aquele terreno, mediante Jesus Cristo. O Senhor a seguir nos deu aquela vitória, para que a man­tivéssemos firmes.
Dentro do território de Cristo, a derrota do inimigo é um fato consumado, e a Igreja foi colocada nesse território a fim de manter a derrota do diabo. O inimigo deve ser mantido derrotado. Satanás é quem se empenha em contra-atacar, e seus esforços procuram desalojar-nos da esfera de Cristo. De nossa parte, não precisamos lutar para ocupar um terreno que já é nosso. Em Cristo nós somos conquistadores. Vencedores. "Mais do que vencedores" (Roma­nos 8:37). É nele, portanto, que estamos firmes. , Assim é que agora nós batalhamos, não para obter a vitória. Lutamos porque já temos a vitória. Não lutamos objetivando conseguir uma vitória, porque em Cristo já a ganhamos. Os vencedores são aqueles que descansam na vitó­ria alcançada para eles por seu Deus, em Cristo. Se você quiser lutar a fim de obter a vitória, já está derrotado antes de iniciar a luta. Vamos supor que Satanás se empenhe em assaltá-lo em sua casa, ou em seu trabalho. Surgem dificulda­des, crescem os mal-entendidos, é uma situação que você não consegue controlar, e tampouco dela escapar. E ameaça destruí-lo. Você se põe a orar, você jejua, luta e resiste durante muito tempo, mas nada acontece. Por quê? Porque você está lutando a fim de obter uma vitória e, ao
fazê-lo, está devolvendo ao inimigo todo o terre­no que já pertence a você. A vitória, lhe parece um alvo distante demais, muito longe de você, fora do seu alcance.
Eu próprio me vi nessa situação, certa vez, mas Deus me trouxe à mente sua palavra conti­da em 2 Tessalonicenses, a respeito do homem do pecado, "o iníquo", a quem o Senhor Jesus "desfará pelo sopro de sua boca" (2 Tessalonicenses 2:8). Veio-me este pensamento: Só precisarei de um sopro da boca do Senhor para liquidá-lo de vez; no entanto, aqui estou eu tentando produzir um tufão! Não foi Satanás uma vez por todas derrotado? Então essa vitória também já está ganha.
Só os que se assentam podem permanecer firmes. O poder que nos vem para que fiquemos firmes, tanto quanto para que andemos, está em que primeiro nos assentamos com Cristo no céu. O andar e o guerrear do crente dependem do poder de sua posição em Cristo. Se o cristão não se assenta perante Deus, não pode esperar ficar firme diante do inimigo.
O primordial objetivo de Satanás não é
 induzir-nos a pecar, mas simplesmente facilitar para nós o pecado, fazendo-nos sair do território do triunfo perfeito para onde Cristo nos levou. Ao longo da avenida de nosso intelecto, ou de nosso coração, mediante nossa mente ou nossos sen­timentos, o diabo nos assalta no descanso que usufruímos em Cristo ou em nosso andar no Espírito. Todavia, há proteção para nós, uma armadura defensiva para cada parte de nós que for atacada: o capacete, o cinturão, a couraça, o calçado e, cobrindo-nos completamente, o escu­do da fé que desvia os dardos inflamados. Afiança-nos a fé: Cristo é exaltado. Diz mais a fé: Somos salvos pela graça de Deus. Continua a fé: Temos livre acesso ao Pai. E termina a fé: Ele habita em nós pelo seu Espírito (veja-se 1:20; 2:8;3:12, 17).
Visto que a vitória é do Senhor, ela se torna nossa. Basta-nos que não pretendamos
con­quistar uma vitória, mas simplesmente mantê-­la: veremos o inimigo perecer em total destrui­ção. Não devemos pedir a Deus que nos capacite a vencer o inimigo, e tampouco que possamos olhar para Jesus a fim de vencer o inimigo, mas devemos louvá-lo porque Ele já fez essa obra em nosso lugar. O Senhor é o vitorioso. É uma simples questão de termos fé nele. Se cremos no Senhor, não vamos orar tanto quanto vamos louvá-lo. Quanto mais simples e mais clara for nossa fé no Senhor, menos oraremos em situa­ções de guerra, e mais o louvaremos pela vitória já obtida.
Vou repeti-lo: em Cristo já somos vencedores. Não é então óbvio, uma vez que já temos a vitória, que simplesmente devemos orar agradecendo a vitória? E que essa oração seja feita em forma de louvor em vez de pôr em risco nossa posição fundamental, vindo a perdê-la em derrota? Permi­ta-me que lhe pergunte: A derrota tem sido a sua experiência? Você se viu esperando que um dia haveria de ser suficientemente forte para poder vencer? Nesse caso, minha oração por você não pode ser outra senão a do apóstolo Paulo, em prol de seus leitores efésios. E a oração em que o apóstolo pede que "sejam iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação".
Que você consiga ver-se assentado com Cristo, que foi "sentar-se à sua direita [de Deus] nos céus, acima de todo principado, e autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia" (1: 20, 21). Talvez as dificuldades ao seu redor não se alterem; o leão poderá rugir com muito furor, como sempre; mas você não precisa ter esperança de vencer. Em Cristo Jesus você é o vencedor.



Em Seu Nome

Entretanto, isto não é tudo. Efésios 6
preocupa-se com algo mais do que o lado pessoal de nossa guerra. Relaciona-se também com a obra de Deus que a nós foi confiada, a expressão do mistério do evangelho de que Paulo tem tanto que falar (veja-se 3:1-13). Para isto recebemos duas armas, a espada do Espírito e a oração.  "Tomai... a espada do Espírito, que é a palavra  de Deus. E orai em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito. Vigiai nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos. Orai também por mim, para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para com intrepidez fazer conhecer o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que possa falar dele livremente, como devo falar" (6:17-20).
Desejo dizer algo mais à respeito desta
guer­ra, em relação a nossa obra para Deus, porque aqui podemos encontrar uma dificuldade. É verdade, por um lado, que nosso Senhor Jesus está sentado "acima de todo principado, e auto­ridade", e que "sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés" (1:21, 22). Fica bem claro que é a luz dessa vitória completa que devemos dar "graças sempre por tudo a nosso Deus e Pai,em nome de nosso Senhor Jesus Cristo" (5:20).
Entretanto, precisamos admitir que ainda não conseguimos ver todas as coisas sujeitas a Cristo. Ainda há, no dizer de Paulo, hostes de espíritos maus nos lugares celestiais, poderes das trevas, malignos, por trás dessas potestades, que ocupam territórios que de justiça pertencem a Cristo. Até que ponto estamos certos em cha­mar essa guerra de defensiva? Não queremos ser presunçosos, vitimados pela falsidade. Então, quando e sob quais circunstâncias somos nós justificados em ocupar o território que externa­mente pertence ao inimigo, mantendo-o em nome do Senhor Jesus?
Vamos consultar a Palavra de Deus ("Tomai... a palavra de Deus"), para obtermos ajuda aqui. Que é que a Bíblia nos diz a respeito da oração e da ação "no nome de Jesus"? Consideremos primeiro as duas passagens seguintes: "Em ver­dade vos digo que tudo o que ligares na terra, será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu. Também vos digo que se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á
con­cedida por meu Pai que está nos céus. Pois onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles" (Mateus 18:18-20).
"Naquele dia nada me perguntareis. Em
ver­dade, em verdade vos digo que tudo o que pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vos dará. Até agora nada pedistes em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja comple­ta... Naquele dia pedireis em meu nome" (João 16:23, 24, 26).
Ninguém pode salvar-se sem o conhecimento do nome de Jesus, e ninguém pode efetivamente ser usado por Deus sem conhecer a autoridade desse nome. O apóstolo Paulo deixa a questão bem esclarecida de que o "nome" a que Jesus alude nessa passagem acima não é simplesmen­te o nome pelo qual Ele era conhecido enquanto esteve na terra entre os homens. Trata-se, na verdade, de nome indicativo de sua humanida­de, seu nome investido de um título e de uma autoridade que lhe foram conferidos por Deus, o Pai, pela sua obediência até à morte (Filipenses 2:6-10). Resume o resultado de seus sofrimen­tos, o nome de sua exaltação e glória; e hoje é nesse "nome que é sobre todo o nome" que nós nos reunimos e pelo qual rogamos ao Senhor Deus.
A distinção é feita não só por Paulo, mas pelo próprio Jesus na segunda passagem menciona­da acima: " Até agora nada pedistes em meu nome... Naquele dia pedireis em meu nome" (vv. 24, 26). Para os discípulos "aquele dia" será diferente do "agora" do v. 22. Algo que eles não têm agora terão naquele dia, e tendo-o recebido, o usarão. Esse algo é a autoridade que acompa­nha o nome de Cristo.
Nossos olhos devem abrir-se para que
 possa­mos ver a poderosa mudança ocasionada pela ascensão. O nome de Jesus certamente estabe­lece a identidade daquele que está no trono com o carpinteiro de Nazaré, mas isto vai além. Representa o poder e o domínio dado a Jesus pelo Pai, um poder e um domínio perante os quais todos os joelhos nos céus e na terra deverão dobrar-se. Até os líderes judaicos reconheciam que esse tipo de significado poderia estar presente em um mero nome, ao pergunta­rem aos discípulos a respeito da cura do homem coxo: "Com que poder, ou em nome de quem fizestes isto?" (Atos 4:7).
Hoje esse nome nos diz que Deus entregou toda autoridade a seu Filho, de tal modo que em seu nome há poder. Mas precisamos notar mais ainda, que nas Escrituras a expressão que se repete é "em nome", ou seja, notemos o uso que os apóstolos faziam desse nome. Não se trata apenas do fato de o Senhor ter esse nome, mas de nós podermos usá-lo. Em três passagens em seu último sermão, o Senhor Jesus repetiu as palavras "pedir em meu nome" (veja-se João 14.13. 14; 15:16; 16:23-26). O Senhor colocou essa autoridade em nossas mãos para nosso uso. Não só essa autoridade é de Cristo, como também foi "dada entre os homens" (Atos 4:12). Se não soubermos nossa parte, sofreremos gran­de perda.
O poder de seu nome opera em três direções Em nossa pregação, ele é eficaz na salvação das pessoas (Atos 4:10-12), pela remissão de seus pecados, e pela sua purificação, justificação e santificação perante Deus (Lucas 24:47; Atos 10:43; 1 Coríntios 6:11). Em nossa guerra espi­ritual, ele é poderoso contra os poderes satâni­cos, para amarrá-los e sujeitá-los (Marcos 16:17; Lucas 10:17-19; Atos 16:18). E como já vimos, em nossos pedidos o nome é eficaz diante de Deus, visto que duas vezes o Senhor nos disse: "E farei tudo o que pedirdes em meu nome..." e duas vezes "tudo o que em meu nome pedirdes..." (João 14:13, 14; 15:16; 16:23). Diante de tais palavras desafiadoras, podemos dizer com toda reverência: "Senhor, tua coragem é grandiosa!"  É algo tremendo que Deus se comprometa dessa forma perante seus servos. Vamos agora dar uma olhada em três incidentes em Atos que servem para ilustrar esta lição: "Disse Pedro:...Em nome de Jesus Cristo, o nazareno, levanta-te e anda" (Atos 3:6). "Paulo... disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, ordeno-te que saias dela. E na mesma hora saiu" (Atos 16:18). "Alguns dos exorcistas judeus., tenta­vam invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que estavam possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega... Respondeu, porém, o espírito maligno: Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo, mas vós quem sois?" (Atos 19:13, 15).
Observemos primeiro a ação de Pedro ao tratar do homem coxo na porta Formosa. Ele não se ajoelhou, nem orou, nem pediu a mente de Cristo, em primeiro lugar. De imediato ele disse: "Levanta-te e anda." Pedro usa o nome como se lhe pertencesse, para usá-lo à vontade. Não era algo distante, no céu. Com Paulo em Filipos, ocorreu o mesmo. Ele sente em seu espírito que a ação satânica foi longe demais. Não somos informados de que Paulo houvesse feito uma pausa para orar. Não. Paulo anda em verdade diante de Deus e, por causa disto, é um guardião do nome santo, pelo que atua como se o poder fosse seu mesmo. Ele ordena e o espírito mau foge: "E na mesma hora saiu".
Que é isso? É apenas um exemplo do que chamo de "compromisso" de Deus com o ho­mem. Deus se comprometeu com seus servos a agir através deles, pois podem dar ordens "em seu nome". E os discípulos, que fazem eles? Fica bem claro que nada fazem de si mesmos. Apenas usam o nome. Fica igualmente claro que ne­nhum outro nome, seja deles mesmos, como apóstolos, seja o de alguém diferente, terá o mesmo efeito. Tudo quanto acontece é resultado do impacto do nome do Senhor Jesus sobre a situação; os apóstolos oram autorizados a usar seu nome.
Deus contempla seu Filho na glória, não olha para nós aqui na terra. E porque ele nos vê assentados com Cristo lá no céu, seu nome e sua autoridade podem ser confiados a nós, aqui. Uma simples ilustração ajudará a esclarecer este ponto.
Há algum tempo um de meus companheiros de trabalho enviou-me um pedido de dinheiro. Eu li sua carta, preparei o que ele me pediu e entreguei o dinheiro ao mensageiro. Estava eu certo? Sim, claro! A carta trazia a assinatura de meu amigo e, para mim, isso era suficiente. Deveria eu, em vez disso, perguntar ao mensa­geiro qual era seu nome e idade e função e lugar de nascimento e a seguir, talvez, mandá-lo em­bora por ter eu objetado quanto ao que ele era? Não, de modo algum. Ele havia vindo em nome de meu amigo, e eu honrei aquele nome.

O Compromisso Divino

Que coisa extraordinária fez Deus, ao
com­prometer-se com sua Igreja! Ele se comprome­teu a confiar a seus servos o maior poder do universo. Ele nos deu o poder de seu governo "acima de todo principado, e autoridade, e po­der, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro" (1:21). Jesus está agora exaltado no céu, e toda a sua obra é dedicada a salvar as pessoas, a falar a seus corações, e a operar milagres de sua graça, e é feita mediante seus servos, em seu nome.
Assim, a obra da Igreja é a obra de Cristo. Na verdade, o nome de Jesus é o maior legado de herança para a igreja, visto que onde o compro­misso de Deus está operando, o próprio Cristo assume a responsabilidade daquilo que se faz em seu nome. E quis comprometer-se conosco, porque não instituiu nenhum outro meio pelo qual sua obra deva ser realizada.
Nenhuma obra é digna de ser chamada de obra de Deus se o próprio Deus não estiver comprome­tido, nesse sentido, com ela. O que vale é a autorização para que usemos seu nome. Devemos ser capazes de levantar-nos e falar em seu nome. Se não, nosso trabalho sofrerá a falta de impacto espiritual. Mas deixe-me adverti-lo: isto não é algo que se pode "fazer em tempo de crise". Na verdade, é o fruto da obediência a Deus, e de uma posição espiritual resultante da obediência, conhecida e mantida. Trata-se de algo que devemos possuir sempre, para que esteja à nossa disposição em época de necessidade.
"Conheço a Jesus, e bem sei quem é Paulo". Louvado seja Deus pela menção do nome de Paulo! Os poderes malignos reconhecem o Filho; os evangelhos dão-nos todas as provas de fato. Mas há as pessoas que estão unidas ao Filho, as quais têm valor diante do Hades. A questão é: Pode Deus comprometer-se dessa forma com você?
Permita-me dar outra ilustração. Se algo
deve ser feito em meu nome, isto significa que eu, dentro de determinadas condições, dei meu nome para que outra pessoa o use. Por isso. estou preparado para assumir total responsabilidade pelo que tal pessoa fizer em meu nome. Pode significar, por exemplo, que eu entrego meu talão de cheques com minha assinatura, a essa pessoa. É claro que se eu sou pobre, e não tenho conta bancária nem prestígio pessoal, meu nome é de pequena importância.
Lembro-me bem de quando eu era estudante e gostava de gravar meu nome por toda parte, em livros, papéis e em tudo em que eu pusesse as mãos. Mas quando, pela primeira vez, tive uma conta bancária e um talão de cheques, tornei-me cuidadoso quanto ao uso de minha assinatura, por medo de que alguém pudesse falsificá-la e usá-la. Meu nome se tornara importante para mim.
Como nosso Senhor Jesus Cristo é poderoso e rico! Como seu nome lhe é precioso! Portanto, se Ele deve assumir a responsabilidade de tudo quanto acontece pelo uso que fazemos de seu nome, como o Senhor deve ser cuidadoso quanto a esse uso!
Eu lhe pergunto de novo: Pode Deus
comprometer-se — comprometer seu "saldo bancário", comprometer seu "talão de cheques", sua "assina­tura" —com você?
É preciso que em primeiro lugar esta questão seja resolvida. Só então você estará autorizado a usar seu nome livremente. Só então "o que ligares na terra será ligado no céu". A seguir, por causa da realidade do seu compromisso com Deus, você pode movimentar-se como um verda­deiro representante de Cristo neste mundo. Esse é o fruto de nossa união com Ele.
Estamos nós em tal união com o Senhor que ele, por isso, se comprometerá conosco em rela­ção ao que estamos fazendo? Parece com freqüência que estamos correndo um grande risco, ao entrarmos numa situação em que contamos apenas com as promessas de Deus como nosso apoio. A questão então é: Pode Deus dar-nos apoio? Quer Deus nos apoiar?
Deixe-me delinear de modo breve quatro
ca­racterísticas essenciais de uma obra com a qual Deus pode comprometer-se de modo integral. A primeira necessidade vital é de uma revelação verdadeira aos nossos corações sobre os propósi­tos eternos de Deus. Não podemos sobreviver sem isto. Se eu estou trabalhando numa edificação, ainda que eu seja um operário não-qualificado, preciso saber se o objetivo é uma garagem, ou um hangar de avião ou um palácio. Devo tomar conhe­cimento da planta, porque do contrário não reve­larei inteligência em meu trabalho.
Hoje, a maioria dos cristãos presume que o evangelismo é a obra de Deus. Todavia, o evangelismo não pode ser uma atividade sem relação com o plano de Deus em nossas vidas. O evangelismo deve estar integrado no plano total de Deus, visto que não passa de um meio para atingir-se um fim. O objetivo da evangelização é a preeminência do Filho de Deus, uma obra que reúne os filhos de Deus, entre os quais Cristo se torna a figura de maior destaque.
Na geração de Paulo, cada crente desfrutava de um relacionamento específico com o propósi­to eterno de Deus (veja-se de modo especial 4:11-16). Isso não deveria ser menos verdade a nosso respeito, hoje. Os olhos de Deus voltam-se para a chegada de seu reino. Aquilo que nós conhecemos hoje como cristandade organizada, em breve deverá ceder lugar para algo diferente: o reinado soberano de Cristo. Todavia, à seme­lhança do reinado de Salomão, agora também há, primeiro, um período de guerra espiritual representado pelo reino de Davi. Deus está procurando as pessoas que vão cooperar com Ele hoje, nessa guerra preparatória.
O problema é a da identificação do meu propósito com o propósito eterno de Deus. Toda obra cristã que não se identifica desta maneira é fragmentária, não mantém relação com Deus, e jamais chegará a parte alguma. Devemos bus­car em Deus a revelação para nosso coração, mediante seu Espírito Santo, do "mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito" (veja-­se 1:9-12). Depois devemos perguntar a nós mesmos algo a respeito da obra a que voltare­mos, após termos respondido: "Meu trabalho se relaciona com o reino de Deus?" Estabelecido isto, todas as pequenas questões da orientação divina diária se resolverão por si mesmas.
Em segundo lugar, toda a obra efetiva
segun­do o propósito divino deve ser concebida por Deus. Se nós planejamos a obra e depois pedi­mos a Deus que a abençoe, não devemos esperar que Deus se comprometa com nosso trabalho. O nome de Deus jamais estará num "carimbo de borracha" que nos autoriza a realizar um traba­lho cujo conceito é nosso. É verdade que pode haver alguma bênção sobre esse trabalho, mas será parcial, jamais completa. Nele não existe a expressão "em nome de Jesus". Que tragédia, só haverá o nosso nome!
"O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma". Quão frequentemente no livro de Atos encontramos algumas proibições do Espírito Santo! Lemos no capítulo 16 que Paulo e seus companheiros "foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia". E de novo: "Mas o Espírito de Jesus não lho permitiu". Entretanto, este é o livro dos atos do Espírito Santo, não é o livro de suas "inatividades". Com demasiada freqüência julgamos que fazer coisas é que é importante. Temos de aprender a lição do "não faça". A lição do ficar quieto na presença de Deus. Devemos aprender que se Deus não se mexe, nós não devemos nos mexer. Quando houvermos aprendido isso, então o Senhor pode enviar-nos com segurança à obra, para falarmos em seu nome.
Preciso ter, portanto, certo conhecimento da vontade de Deus na minha particular esfera de trabalho. O trabalho só deve ser iniciado a partir desse conhecimento. A norma permanente de toda obra verdadeira de Deus é esta: "No princí­pio Deus..."
Em terceiro lugar, todo o trabalho para Deus, para ser eficaz, e para ter continuidade, deve depender do poder de Deus, e de ninguém mais. Que é poder? Frequentemente usamos esta pa­lavra de maneira frívola. Dizemos a respeito de um cidadão qualquer: "Ele é um orador podero­so". Todavia, precisamos fazer a nós mesmos a seguinte pergunta: "Que poder está ele usando? Ele emprega o poder natural, ou o espiritual?"
Hoje estamos dando ênfase demais ao poder da natureza empregado na obra de Deus. Preci­samos aprender que, ainda quando é Deus quem inicia a obra, se tentarmos executá-lo com nosso próprio poder, nosso Deus jamais se com­prometerá com nossa obra. Você me pergunta que é que eu entendo por força natural. Descrevendo-a de modo muito simples, eu diria que força natural é aquela que empregamos sem a ajuda de Deus. Atribuímos a uma pessoa a tarefa de organizar algo — que planeje, por exemplo, uma campanha de evangelização, ou outra atividade qualquer — visto que tal pessoa é por natureza uma pessoa organizada e organizadora. Mas, nesse caso, qual será a dedicação dessa pessoa à oração? Se essa pessoa está acostumada a confiar em seus dons naturais, poderá não sentir necessidade de clamar a Deus.
O problema que aflige a muitos de nós é que há muitas coisas que podemos fazer sem preci­sar confiar em Deus! Precisamos ser levados àquele ponto em que, ainda que sejamos dota­dos naturalmente de grandes talentos, não ou­samos agir, não ousamos falar, a não ser se estivermos conscientes de nossa contínua de­pendência do Senhor.
Estêvão descreveu Moisés, o jovem que rece­bera educação egípcia, da seguinte maneira: "Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios, e era poderoso em palavras e obras". Entretanto, quando o Senhor entrou em contato com ele, após haver trabalhado nele, Moisés reconheceu: "Ah! Senhor! eu nunca fui eloqüente, nem antes nem depois que falaste ao teu servo. Sou pesado de boca e pesado de lín­gua".
Quando um orador nato chega a afirmar: "Eu não sei falar", é que aprendeu uma lição funda­mental e encontra-se no caminho da verdadeira utilização da parte que cabe a Deus. Essa desco­berta envolve uma crise e depois um processo que dura a vida toda. Tal crise e tal processo estão implícitos com toda certeza na expressão empregada por Lucas: "batizados em nome do Senhor Jesus" (Atos 8:16; 19:5). Essa expressão diz a todo crente novo a necessidade de um conhecimento fundamental sobre a morte e a ressurreição de Cristo, no que se relaciona â natureza humana do crente. De certo modo, em nossa história de relacionamento com Deus, precisamos experimentar aquele toque inicial da mão de Deus que nos aleija, e nos enfraquece a força natural, de tal modo que nos firmamos apenas e unicamente na vida da ressurreição de Cristo, em cujo território a morte não penetra. Depois disso, o círculo se alarga, à medida que novas áreas de nossa energia natural,
hu­mana, são trazidas â influência da cruz. Trata-se de um método custoso, mas é o método eficaz de Deus, que produz frutos em nossa vida e em nosso ministério, e provê ao Senhor o solo de que Ele precisa para dar seu apoio à obra que realizamos no nome de seu Filho.
Na obra de Deus dos dias atuais, as coisas com freqüência estão dispostas de tal maneira que não temos necessidade de confiar em Deus. Entretanto, o veredicto do Senhor a respeito de todas essas obras exclui o seu comprometimen­to: "Sem mim nada podeis fazer". Toda a obra que a pessoa consegue fazer sem a ajuda de Deus é madeira, feno, palha — materiais de pouco valor — e o fogo provará nossas obras, comprovando esse princípio.
E que o trabalho de Deus só pode ser
execu­tado com o poder de Deus, e esse poder só pode ser encontrado no Senhor Jesus. Ele está à nossa disposição na ressurreição, que é outro lado da cruz. Em outras palavras, é quando chegamos ao ponto em que honestamente dize­mos: "Eu não sei falar", e descobrimos que Deus está falando. Quando chegamos ao fim de nos­sas obras, a obra de Deus se inicia. Deste modo é que o fogo nos dias vindouros e a cruz hoje efetuam a mesma obra. O que não suportar a cruz hoje não suportará o fogo amanhã.
Se o meu trabalho, que eu faço no meu poder, vier a morrer, que é que sai da sepultura? Nada! Nada, absolutamente nada sobrevive à cruz, senão o que veio integralmente de Deus, em Cristo.
Deus jamais nos pede que façamos uma coisa que podemos fazer. Pelo contrário. Ele nos pede que vivamos uma vida que jamais podere­mos viver, e que executemos um trabalho que jamais poderemos executar. No entanto, pela sua graça, estamos vivendo sua vida, e estamos executando o seu trabalho. A vida que vivemos é a vida de Cristo vivida no poder de Deus, e o trabalho que executamos é o trabalho de Cristo desenvolvido por nosso intermédio, mediante seu Espírito, a quem obedecemos. O egoísmo é a única obstrução a essa vida e a esse trabalho. Que todos nós possamos orar em nosso coração: "Ó Senhor, cuida de mim!"
Finalmente, o objetivo de todo o trabalho com o qual Deus pode comprometer-se deve ser sua própria glória. Isto significa que não consegui­mos nada desse trabalho para nós mesmos. Um dos princípios divinos é que quanto menos obte­mos de satisfação pessoal, de um trabalho desse tipo, maior é seu valor diante de Deus. Não há lugar para a glória do homem na obra de Deus. É verdade que existe uma alegria profunda e preciosa em qualquer serviço que traz satisfação ao Senhor, o que abre a porta para a operação divina, mas a base dessa alegria é "louvor e glória da sua graça" (1:6,12,14).
Só quando tais questões são acertadas
corretamente entre nós e Deus é que Deus se compro­meterá. Na verdade, eu creio que Ele nos permi­tirá dizer, só depois disso, que o Senhor tem de operar. A experiência na China nos tem ensina­do isto: Se houver alguma dúvida quanto a se determinada obra pertence a Deus, é certo que Deus está relutante em atender às nossas ora­ções relativas a essa obra. Todavia, quando a obra é totalmente de Deus, o Senhor se
compro­mete de maneira maravilhosa. A partir de então você poderá usar o nome de Deus, por estar em total obediência ao Senhor, e até o inferno deverá reconhecer sua autoridade para fazê-lo. Quando Deus se compromete a fazer algo, Ele sobrevêm, cheio de poder, a fim de provar que está compro­metido com a obra, e que Ele próprio é seu autor.

O Deus de Elias

Permita-me narrar-lhe, para encerrar, uma experiência que eu vivi no início de meu minis­tério. Alguns anos depois de termos iniciado nossa obra, passamos por um período de teste severo. Foram dias de desapontamento, quase desespero.
Tornamo-nos sujeitos a inúmeras criticas e a muito descrédito por causa da posi­ção que estávamos assumindo, o que resultou em frieza e constrangimento até mesmo da parte do verdadeiro povo de Deus. Havíamos enfrentado e examinado com ho­nestidade as acusações levantadas contra nós, pois é sempre essencial que todas as críticas sejam analisadas com seriedade, em vez de as colocarmos de lado, dizendo: "Ora! essa pessoa está apenas criticando meu trabalho!" Entre­tanto, tínhamos toda razão para crer que o Senhor estava conosco, visto que aquele ano, particularmente difícil, estava chegando ao tér­mino, e o Senhor nos havia dado várias centenas de conversões verdadeiras. Então, no fim do ano, parecia-nos ter atingido um clímax.
Todos os anos, na primeira quinzena de janeiro, era nosso costume realizar uma conven­ção na cidade, reunindo todos os crentes de diferentes origens, de toda a província. Nesse ano em particular, os anfitriões da convenção me pediram que não comparecesse. Esse pedido chegou como um choque para todos nós. Era uma tentativa, agora eu o percebo, do inimigo, do maligno, para levar-me, a mim e a meus irmãos, a perdermos o equilíbrio e nossa posição de descanso em Cristo. A questão que
enfrentá­vamos era: Como iremos reagir?
As festividades do início do novo ano duram muito tempo; chegam a ocupar quinze dias. Além de ser um ótimo período para uma conven­ção, é também a melhor época para a evangelização. Depois de procurarmos desco­brir qual era a vontade do Senhor naquele episódio, tornou-se-nos claro que Ele queria que Pregássemos o evangelho. Por isso, planejei le­var comigo cinco irmãos para uma campanha de quinze dias de duração, numa ilha longe da costa sul da China.
Quando já estávamos de partida, outro jovem irmão, a quem darei o nome de "irmão Wu," uniu-se ao grupo. Tinha apenas dezesseis anos de idade e havia sido expulso da escola. Mas, ele havia recentemente nascido de novo, e notava-se grande mudança em seu modo de viver. O . caso é que ele estava ansioso para ir conosco, de modo que, depois de alguma hesitação, concor­dei em levá-lo. Agora éramos sete, ao todo.
A ilha era bem grande, tendo uma vila em que moravam 600 famílias. Um antigo colega nosso de escola era o professor do curso primário na vila. Escrevi-lhe com antecipação pedindo um quarto em que pudéssemos alojar-nos durante nossa estada, que iria de primeiro de janeiro até o dia 15. Chegamos, finalmente, tarde da noite e em plena escuridão. Quando meu amigo des­cobriu que havíamos ido para pregar o evange­lho, recusou-nos as acomodações. Por isso, pusemo-nos a procurar hospedagem na vila, até que, por fim, um especialista chinês em ervas teve misericórdia de nós e nos recebeu, deixando-nos bem à vontade, sobre umas tábuas e palhas no sótão de sua casa.
Não demorou muito e esse especialista em ervas tornou-se nosso primeiro convertido a Cristo. Embora trabalhássemos sistematicamen­te, e com muito afinco, e o povo da vila fosse extremamente cortês, nossos frutos na ilha eram escassos, e pusemo-nos a querer saber quais seriam as razões disso.
No dia 9 de janeiro estávamos na rua
pregan­do. O irmão Wu e alguns outros pregavam em outra parte da ilha. De súbito, Wu perguntou publicamente:
— Por que ninguém dentre vocês aceita Je­sus como Salvador?
Alguém da multidão respondeu
imediata­mente:
— É porque nós já temos um deus. Ta-wang (significa: Grande Rei), e ele nunca nos falhou. Ele é um deus eficiente.
— E como é que você sabe que pode confiar nele? — perguntou Wu.
— Nós, habitantes desta ilha, costumamos realizar uma procissão festiva ao nosso deus todo o mês de janeiro. Essa procissão vem sendo realizada há 286 anos. O dia escolhido nos é revelado por ocultismo-, antecipadamente, e to­dos os anos, sem falta, o dia de nosso deus é perfeito, sem uma única nuvem, nem chuvas — foi a resposta.
—  Quando será a procissão festiva neste ano?
— Foi fixada para o dia 11 de janeiro. Imediatamente, houve aclamações calorosas
da parte do povo:
—  Chega! Não queremos ouvir mais
prega­ções. Se chover no dia 11, então o seu Deus é Deus!
Eu estava noutra parte da vila quando este incidente aconteceu. Tão logo soube desse fato, verifiquei que ele era da maior seriedade. A novidade se havia espalhado como fogo ardendo encosta acima; logo, mais de vinte mil pessoas estariam a par de tudo. Que deveríamos fazer? Paramos imediatamente de pregar e pusemo-nos a orar. Pedimos ao Senhor que nos perdoas­se, se tínhamos avançado indevidamente. Vou contar-lhe a verdade: estávamos sofrendo de ansiedade mortal. Que havíamos feito?
Tería­mos por acaso cometido um erro terrível? Ousa­ríamos pedir a Deus um milagre?
Quanto mais você almeja uma resposta às suas orações a Deus, mais você deseja estar em harmonia com Ele. Não pode haver dúvida quan­to a sua comunhão com Deus; não pode existir nada a sombreá-la. Se a sua fé estiver posta em  coincidências, você poderia chegar a criar uma controvérsia com o Senhor, não, porém, em nosso caso. Não nos importávamos de ser expul­sos, caso houvéssemos cometido alguma infra­ção. Afinal, você não pode arrastar Deus, exigin­do dele que faça algo contra sua vontade.
Toda­via, refletimos, aquilo poderia significar o fim do testemunho cristão na ilha; se não chovesse, Ta-wang reinaria supremo para sempre. Que deve­ríamos fazer? Sair de imediato e esquecer o desafio?
Até então havíamos temido orar pedindo
chu­va. Então, como um raio, veio a mim a palavra: "Onde está agora o Senhor, Deus de Elias?" Esta palavra veio-me com tal clareza e poder que eu sabia que vinha de Deus. Com toda confiança, eu anunciei aos irmãos: "Eu tenho a resposta. O Senhor vai mandar chuva no dia 11." Todos juntos ali, demos graças a Deus e depois, com o coração cheio de louvor, saímos para dizer isso a todas as pessoas. Podíamos aceitar o desafio do diabo em nome do Senhor, e deixaríamos por toda parte o comunicado sobre nossa posição.
Naquela noite, o perito em ervas nos fez duas observações prudentes, bem ponderadas. "Indubitavelmente", disse ele, "Ta-wang era um deus eficiente. O diabo estava operando através daquele ídolo. A fé daquele povo nesse deus tinha fundamento. Por outro lado, se você prefe­risse uma explicação racional, aquela era uma vila de pescadores. Durante dois ou três meses, no fim do ano, os homens ficavam no mar. Voltavam, e saíam de novo no dia 15 de janeiro. Dentre todas as pessoas, aqueles pescadores sabiam se choveria ou não com dois ou três dias de antecedência."
Isso nos perturbou. Quando saímos para nossa oração vespertina, começamos todos a orar de novo pedindo chuva — agora! Foi quando sobreveio uma forte admoestação da parte do Senhor: "Onde está agora o Senhor, Deus de Elias?" Iríamos lutar, engajar-nos em nossa batalha, para que nós saíssemos vencedores, ou iríamos descansar na vitória completa já obtida por Cristo? Que fizera Eliseu depois de pronun­ciar essas palavras? Ele apelou para sua experi­ência pessoal, diante do milagre que seu mestre, Elias, agora na glória, havia executado. Em termos do Novo Testamento, Eliseu ficou firme em sua fé, com base numa obra acabada.
Confessamos de novo os nossos pecados. "Senhor", dissemos, "não precisamos de chuva até o dia 11 pela manhã." A seguir fomos dormir. Na manhã seguinte (dia 10) partimos para uma ilha das vizinhanças, para ali pregar durante o dia todo. O Senhor mostrou-se gracioso, e nesse dia três famílias entregaram-se a Ele, confes­sando publicamente a Cristo e queimando seus ídolos. Retornamos tarde, cansados, mas cheios de alegria. Poderíamos desfrutar de um descan­so prolongado no dia seguinte.
Fui acordado pelos raios diretos do sol que atravessavam a única janela de nosso
quarti­nho, no sótão. "Não está chovendo!", disse eu. Já passava das sete horas.
Levantei-me, ajoelhei-me, e orei. "Senhor", clamei, "por favor, envia a tua chuva!" E de novo ressoaram em meus ouvidos as palavras: "Onde está agora o Senhor, Deus de Elias?" Humilhado, desci as escadas em silêncio diante de Deus. Sentamo-nos à mesa  para o café matutino — éramos oito ao todo, contando o nosso hospedeiro — todos muito quietos. Nenhuma nuvem havia no céu, mas sabíamos que Deus estava comprometido conosco. Quando inclinamos nossas cabeças para dar graças pelo alimento, eu disse: "Creio que chegou a hora. A chuva deve cair agora. Podemos trazer isto à presença de Deus." Com toda tranqüilidade oramos assim, e desta vez não sentimos nenhuma repreensão da parte do Senhor.
"Onde está agora o Senhor, Deus de Elias?" Antes de dizermos amém, ouvimos as primeiras gotas de chuva no telhado. Caiu uma forte chuva enquanto comíamos nosso arroz, e nos servía­mos pela segunda vez. "Vamos dar graças de novo", propus, e desta vez pedimos ao Senhor que nos enviasse uma chuva torrencial. Quando iniciávamos nosso segundo prato de arroz, a chuva já caía em torrentes. Ao terminarmos nossa refeição, a rua estava inundada; três degraus da escada à entrada de nossa casa estavam cobertos de água.
Logo depois soubemos o que aconteceu na vila. Nas primeiras gotas de chuva, alguns
jo­vens começaram a dizer abertamente: "O Deus dos cristãos existe; Ta-wang não existe mais! A chuva o derrotou". Mas o ídolo perseverou. Foi carregado numa liteira fechada por fiéis que acreditavam que ele conseguiria fazer parar de chover! Foi quando a borrasca despencou de vez do céu. Três dos carregadores do ídolo foram atirados ao chão, depois de cambalear por três ou quatro metros. A liteira caiu dos ombros deles e a imagem de Ta-wang se espatifou; quebrou-se-lhe o maxilar e o braço esquerdo.
Mas, com máxima determinação, as pessoas consertaram seu deus em regime de emergência e o recolocaram na cadeirinha transportadora. A muito custo, escorregando e tropeçando, os homens carregaram-no pela metade do percur­so, ao redor da vila. Foi quando o dilúvio os derrotou de vez. Alguns dos anciãos da vila, velhinhos de 60 a 80 anos de idade, de cabeças descobertas, sem guarda-chuvas, como o exigia sua fé em
Ta-wang, o senhor do tempo, haviam caído ao chão e enfrentavam sérias dificuldades. A procissão foi interrompida. Levaram o ídolo para uma casa. Alguns se entregaram a consultas aos espíritos do ocultismo. "Hoje o dia foi errado", veio a resposta. "A festa deve ser realizada no dia 14. A procissão deverá iniciar-se às dezoito horas."
Tão logo ouvimos esta notícia, a certeza entrou em nosso coração: "Deus mandará chu­va no dia 14". Fomos orar. "Senhor, envia a tua chuva no dia 14 às 18 horas, e dá-nos quatro dias ensolarados até lá". De tarde, o céu ficou limpo e tivemos um bom auditório para a prega­ção do evangelho. O Senhor nos deu mais de trinta novas conversões — conversões reais — naquela vila e na ilha durante aqueles três dias. Surgiu o dia 14, outro dia perfeito, ensolarado, e realizamos boas reuniões evangelísticas. Ao
aproximar-se a noitinha reunimo-nos e, de novo, trouxemos o assunto perante o trono de Deus. Sem tardança de um minuto sequer, a resposta do Senhor veio na forma de uma chuva torren­cial, um verdadeiro dilúvio, como antes.
No dia seguinte, nosso tempo se findou; nós
precisávamos regressar. Não voltamos mais àquela vila. Outros obreiros pediram trabalho  naquelas ilhas, e nós jamais questionamos
al­gum privilégio de exclusividade naquele campo. Para nós o ponto essencial foi que o poder de Satanás naquele ídolo se havia quebrado, o que é um fato eterno. Ta-wang deixou de ser "um deus eficiente". Ocorreu depois ali a salvação de muitas almas, mas este fato tornou-se secundá­rio diante dessa realidade vital, imutável.
A impressão sobre todos nós foi duradoura. Deus se havia comprometido conosco.
 Havía­mos provado a autoridade do nome que está sobre todo nome, o nome que detém o poder no céu, na terra e no inferno. Naqueles dias viemos a saber o que significa o que chamávamos de "estar no centro da vontade de Deus". Estas palavras deixaram de ter um sentido vago, um tanto visionário. Descrevem uma experiência que todos vivenciáramos. O grupo havia recebi­do um vislumbre, algo sobre "o mistério da sua vontade" (1:9; 3:10). Viveríamos suavemente todos os nossos dias. Anos mais tarde encontrei-me com o "irmão Wu". Eu havia perdido o contato com ele. Depois daquele episódio, ele se tornara piloto da força aérea. Quando lhe per­guntei se ele ainda seguia o Senhor, ele me replicou: "Sr. Nee! O senhor acha que depois de tudo o que vivemos naqueles dias eu poderia abandonar o Senhor?"
Você entendeu o que significa "estar firme"? Não tentamos ganhar terreno. Meramente per­manecemos no terreno que o Senhor Jesus ganhou para nós e, resolutamente, nos
recusa­mos a sair dali. Quando nossos olhos se abrem a ponto de podermos ver Cristo, o Senhor vitorioso, nosso louvor se desprende espontânea e livremente. Cantando e salmodiando ao Senhor em nosso coração, damos-lhe graças por tudo, em nome de Cristo (5:19-20). O louvor que representa o resultado de esforços tem o travo de nossas próprias obras, um som sem harmonia. Mas o louvor que flui espontaneamente do cora­ção que repousa no Senhor sempre apresenta um tom doce e puro.
A vida cristã consiste em estar assentado com Cristo, andar em Cristo e estar firme em Cristo. Iniciamos nossa vida espiritual descan­sando na obra consumada do Senhor Jesus. Esse descanso constitui a fonte de nossa força, para que possamos andar com toda coerência e firmeza pelo mundo. No final da terrível guerra contra as hostes das trevas, encontramo-nos firmes naquele que venceu por nós, e em plena posse do território.
"A graça seja com todos os que amam, com amor perene, a nosso Senhor Jesus Cristo".
"Ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o poder para todo o sempre".











*** FIM ***

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