Saul, um Homem Complicado.

Chegamos a Saul, uma pessoa que ocupa muito espaço no livro de I Samuel, e também uma das pessoas mais complicadas na Bíblia inteira! Nos caps. 9-11 encontramos o seu bom começo e sua exaltação como o primeiro rei de Israel. Nos caps. 13-31 encontramos seu desvio, rejeição e morte.

Antes de meditar sobre Saul, devemos lembrar que a razão pela qual ele ocupa um lugar proeminente neste livro foi porque o povo de Israel pediu um rei para si. Lemos no cap. 8 que Deus não queria um rei sobre o Seu povo, mas o povo insistiu que Samuel elegesse um rei e deram três razões para isto: a idade avançada de Samuel, o mau comportamento dos seus filhos, e o exemplo das nações em seu redor (8:5). O fato que repetiram a última razão nos faz pensar que esta foi a razão principal para eles, embora não a primeira oferecida, e que as outras duas eram apenas desculpas (8:20). Muitas vezes não queremos expressar nossos motivos verdadeiros porque sabemos, no íntimo, que não estão de acordo com a vontade de Deus.
Notamos que, embora não fosse a Sua vontade, Deus concedeu o que tanto queriam! Isto ensina-nos uma lição importante sobre a vontade de Deus. Ela possui dois aspectos: a Sua vontade soberana e a Sua vontade permissiva. Às vezes Ele permite a nossa vontade, mesmo quando não é a Sua vontade para nós, mas neste caso nós perdemos o melhor. “Concedeu-lhes o que pediram, mas fez definhar-lhes a alma” (Sl 106:15).
Devemos ter muito cuidado em insistir com Deus, pois Ele respeita a nossa vontade, mesmo quando não é para o nosso bem! Às vezes um jovem quer casar com uma moça bonita, mas esta não é a escolha de Deus. Ele pode permitir tal casamento, e eles podem viver bem toda a vida, mas não será como Deus queria para eles. Ou pode ser que por causa de não esperar mais tempo no Senhor, aceitamos um emprego que prejudica a nossa vida espiritual. Deus permitiu a mudança de Noemi para Moabe por causa duma fome em Belém, mas não era a Sua vontade (Rt 1). Deus permitiu que Balaão fosse com os servos de Balaque com plano de amaldiçoar o povo de Israel, mas não era a Sua vontade (Nm 22).
Cansados?
“… às vezes nós ficamos cansados com a simplicidade que há em Cristo e Sua igreja”. Que aprendamos com o erro de Israel.

O povo estava cansado com a simplicidade do sistema de liderança em Israel, olhou em redor e viu que todas as nações tinham seus reis, com toda a glória que acompanha o reino. Assim, queriam ser igual às nações. Às vezes nós ficamos cansados com a simplicidade que há em Cristo e Sua igreja (II Co 11:3), e começamos a observar os muitos grupos em nosso redor com seus líderes dinâmicos, suas grandes congregações, as atrações, a emoção e manifestações de poder, etc. Pessoas com pouco discernimento espiritual são atraídas a estas coisas, e querem imitá-las sem pensar se realmente esta é a vontade de Deus. Não é suficiente que Deus permite tudo isto — se não é a Sua vontade expressa na Sua Palavra, haverá perda no fim, e não recompensa (I Co 3:15).
1. Seu começo
Saul (“Desejado”) era benjamita, duma família pobre (9:21), e encontramos com ele pela primeira vez como pastor dos animais do seu pai. Nos caps. 9 e 10 vemos que o jovem Saul tinha várias boas qualidades. Ele era obediente em casa e considerava seus pais (9:3, 5), e era humilde (9:21; 10:16). No cap. 10 vemos que ele teve experiências espirituais quando Deus deu-lhe outro coração e ele profetizou. Vemos a sua sabedoria em não levar a sério as palavras daqueles que tinham ciúmes quando ele foi ungido rei sobre eles (10:27). Estas qualidades lembram-nos da vontade expressa de Deus para a juventude cristã em Ef 6:1-2.
Infelizmente, Saul não continuou muito tempo assim. Duvidamos se Saul era verdadeiramente salvo, pois o resto da sua vida indica que não. Ele era um daqueles que tinham muitos privilégios e sabiam intelectualmente sobre Deus e Seus caminhos, mas o seu coração nunca submeteu-se a Deus como Senhor da sua vida. Muitos jovens, como Saul, fazem uma profissão de fé em Cristo, e por um tempo mostram esperança, mas logo desviam porque “não têm raiz” (Lc 8:13). Amado jovem, o fim é mais importante do que o começo (Ec 7:8). Examine bem o seu “alicerce”, pois uma mera profissão de ser “crente”, embora que satisfaça ao povo, não satisfaz ao Senhor (Mt 7: 22).
2. Sua culpa
Nos caps. 13-15 vemos que Saul logo deixou a sua humildade e começou a agir independentemente da Palavra de Deus. I Cr 10:13 é de grande valor em nosso estudo, e dá-nos um resumo das três etapas no desvio de Saul: Transgressão, desobediência e necromancia.
A) Transgressão. Em I Sm 13:8 vemos a ocasião quando, na luta contra os Filisteus, Saul não teve paciência para esperar pela chegada de Samuel para fazer o sacrifício, e ele mesmo precipitou-se para oferecer o holocausto. Saul era rei, e tinha profetizado também, mas não era sacerdote, e Deus não aceitou o seu sacrifício.
É notável que nas Escrituras achamos pessoas sendo rei e também sacerdote, como Melquizedeque. Também achamos alguns que foram sacerdote e profeta, como Samuel. Outros foram rei e profeta, como Davi, mas somente um é Profeta, Sacerdote e Rei — o Senhor Jesus Cristo (veja At 7:37; Hb 4:14; Ap 19:16).

Contentes!
“Se nosso dom não é dos mais notáveis, vamos ficar contentes com o que temos e fazer na igreja aquilo que Deus quer de nós.”

Deste pecado de Saul aprendemos o grande perigo de querer fazer, na obra de Deus, aquilo que Ele não quer de nós. Nunca devemos cobiçar o trabalho do outro, mas procurar fazer aquilo que Deus deu-nos para fazer (Rm 12: 3). Alguns querem ser mestres, outros presbíteros, sem serem chamados por Deus para estes serviços, e o resultado é sempre confusão. Se nosso dom não é um dos dons mais notáveis, vamos ficar contentes com o que temos e fazer na igreja aquilo que Deus quer de nós. É isto que será recompensado no Dia de Cristo.
B) Desobediência. Em I Sm 15:1, 4-10 vemos outra ocasião quando, na luta contra os Amalequitas, Deus deu-lhe outra oportunidade, e explicou exatamente como Saul deveria agir. A ordem divina foi para exterminar totalmente os Amalequitas. Esta ordem pode parecer muito severa para nós, mas temos de lembrar como este povo era o inimigo perpétuo do povo de Deus (Êx 17:8).
Os Amalequitas eram também parentes chegados de Israel (Gn 36:12), e representam a nossa carne, que é nosso “parente” e grande inimigo que deve ser crucificado sem misericórdia. Saul poupou o melhor dos animais dizendo que era para fazer sacrifício a Deus. Também poupou o rei dos amalequitas, pois sem dúvida sentiu compaixão por ele, sendo outro rei. Por causa desta desobediência veio a Palavra de Deus contra Saul numa maneira que nos ensina uma lição muito importante (veja 15:22): Deus quer obediência total mais que sacrifício. Às vezes obedecemos parcialmente à Palavra de Deus e, como Saul, sentimos que fizemos a vontade de Deus. Se alguém chamar a nossa atenção, procuramos apresentar desculpas, ou justificar-nos pelas circunstâncias, mas Deus não aceita tais coisas.
C) Necromancia. O outro pecado mencionado em I Cr 10:13 é necromancia. Antes de tocar nesta situação, gostaríamos de sugerir que isto foi o resultado de outro pecado que vemos em Saul durante muitos anos — a falta de domínio próprio. Um dos motivos principais no desvio de Saul foi o seu ciúme contra Davi por causa do crescimento e popularidade deste jovem, e da aceitação dele perante Deus e o povo. Saul perseguiu Davi por anos, querendo matá-lo (18:6-12). Nisto ele mostra como a carne age contra o espírito. Às vezes ele mostrou remorso (24:16-20; 26:21, 25), mas nunca arrependeu-se até o dia da sua morte.
Devemos observar aqui o grande perigo de inveja e ciúmes na nossa vida. É uma das obras mais perigosas da carne, e deve ser crucificada. Se não, trará desastre para nós. Veja Nm 12; Pv 14:30; Ct 8:6; Gl 5:20.
Perto do fim da sua vida Saul chegou ao ponto de usar necromancia, ou seja, espiritismo, para procurar falar com Samuel, já falecido, porque ele estava com medo dos filisteus e Deus não falava mais com ele (28:7-19). Esta ocasião mostra até onde Saul tinha desviado, e indica fortemente que ele era “apóstata” e rebelde contra Deus, pois ele bem sabia a vontade de Deus sobre este assunto (Êx 22:18; Lv 19:31; Dt 18:11), e ele mesmo, quando ainda estava em condições melhores, procurou tirar o espiritismo de Israel.
Há várias interpretações para o que aconteceu nesta ocasião, mas não temos dúvida que Deus permitiu o contato com o espírito de Samuel, mas este ato rebelde de Saul não foi a Sua vontade — foi grande pecado e uma das razões principais pela morte cruel de Saul. A mensagem que Saul ouviu de Samuel não foi nenhum consolo, mas que ele e seus filhos iriam morrer no dia seguinte!
Os espíritas usam este trecho como exemplo para procurar falar com os mortos, mas eles recebem mensagens de consolação de espíritos malignos imitando a voz do falecido para enganar os vivos. Fazer isto é grande pecado (Ap 21:8), e os que são da luz não têm nada com as obras das trevas. Visitar curandeiros ou benzedeiras procurando curas, etc., está no mesmo grupo de pecados espirituais que mostram a completa falta de confiança em Deus e na oração do Seu povo.
3. Seu castigo
A morte de Saul foi muito dolorida, e aconteceu em três etapas: vencido e ferido pelos filisteus, Saul caiu sobre sua espada. Ainda assim não morreu, e finalmente um Amalequita o matou (I Sm 31:1-6; II Sm 1:5-10). É notável que um daqueles que ele não quis matar, foi um daqueles que matou-o no fim! Se nós não crucificarmos a carne, ela trará grande prejuízo no fim.
4. Conclusão
Se em Penina vemos a carne perseguindo o Espírito, e em Eli vemos como a carne tolera o pecado, em Saul nós vemos o orgulho e rebeldia da carne que não quer submeter-se a Deus e à Sua Palavra. Saul sabia que Davi era o rei escolhido por Deus, mas procurou matá-lo! Saul sabia que deveria matar os Amalequitas totalmente, mas não o fez. Ele sabia que era pecado procurar fazer contato com os mortos, mas ele tentou fazê-lo. Em outras palavras, Saul foi rebelde e nunca arrependeu-se. Ele nos faz lembrar de “apóstatas” como Balaão e Judas Iscariotes, e que estamos vivendo hoje em dias de apostasia, quando muitos que conhecem a Palavra de Deus rejeitam-na e aceitam as mentiras de “Evolução”, etc.
Para não terminar nesta nota triste, podemos ver um contraste entre Saul e outro Benjamita, Saulo de Tarso! Quão grande a diferença entre estes dois! Saulo de Tarso começou mal, mas arrependeu-se e submeteu-se ao Senhor, e teve um fim abençoado como o grande apóstolo Paulo (II Tm 4:6-8). Assim, Saul serve como advertência, mas Paulo como exemplo. Que nosso fim seja como Paulo, e não como Saul!
Se acaso vês em mim, Senhor,
Alguma ocupação carnal
A desviar meu fraco amor
De Ti, Amigo principal,
Impede tal inclinação
Enchendo Tu meu coração. (H. e C. Nº 267)

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